Centro

Recortes de um lugar

Por Vitor Velloso

Durante o Festival Ecrã 2021

“Centro” de Peter Azen é um prato cheio para o modismo verbal do “efêmero”, ou da “ressignificação”. No segundo caso é difícil de discordar, já que no meio do caminho havia uma pandemia e os espaços fotografados já não possuem a mesma população circulando sem a intervenção de uma máscara, assim gostaríamos. De toda forma, o registro aqui procura um Rio de Janeiro atravessado pelo caos urbano que marca o centro, desde o falatório com xingamentos aleatórios às ruas históricas. 

O curioso é que a perspectiva aqui possui aquele fetichismo esperado de um norte-americano ao registrar o Rio, ainda que isso não seja o norte da obra. A diferença é que para os que residem do outro lado da cidade, o misticismo e a matéria do centro carioca tem mais a ver com a dificuldade de locomoção que a própria história ali presente. As memórias são fragmentadas e com a mediação do transporte urbano. Já disse isso em outra oportunidade, mas o Centro do Rio repulsa mais que converge. Assim, sua própria presença se torna fantasmagórica com o passar das horas, com as ruas esvaziando e a população retornando às suas casas. São faces distintas que o filme é incapaz de capturar, longe da bohemia que tenta representar brevemente, mas próxima dos ritos que enquadra. Está claro que traduzir isso pro cinema parece um exercício impossível, e essa é a graça, afinal a matéria e a gira são inseparáveis nas ruas do centro. 

Mas se “Centro” registra determinados lugares para que as ideias sejam preenchidas pelo espectador, já que a dimensão do tempo e espaço está recortada, o fragmento possui uma mediação que nunca parece honesta. Apesar do som constante, tudo é emoldurado no “surrealismo tropical” (tomando de empréstimo a expressão de Glauber) ou no caos de nossos movimentos. O delírio de que aquele Rio morreu durante a pandemia é de uma falcatrua tremenda, só estando no conforto do Home Office (ou ouvindo Chico) para acreditar que a marginalidade tem lugar e endereço. Mas na perspectiva de um registro marcado pelos passos turísticos, pode ser que haja alguma ressonância de resgate histórico ali, na “ressignificação” que 2021 permite. 

Agora, se o filme propõe esse olhar abjeto para o calor dos trópicos, uma possível funcionalidade do dispositivo é o próprio encaixe permissivo das múltiplas interpretações possíveis da realidade. Tal como o futebol, Peter quer o cosmético da organização em campo, marcando por zonas. O brasileiro dribla, mas tem sempre alguém na contenção. A maldição do subdesenvolvido é que até pra ter alegria nos pés a perna entorta. Assim, a experiência de “Centro” é sempre duvidosa, mambembe, perseguindo uma ideia de beleza por sua inocuidade. Um esvaziamento permissivo que aplaude o “exotismo” de um espaço. Há questões a serem debatidas aqui, mais pela exposição do exercício que propriamente uma proposta particular. 

A montagem até procura um recorte lógico das fotografias com parte dos sons, conseguindo algumas lembranças de parte daqueles lugares, no calor infernal do Saara e na fila de motos próximo à Camões, mas parece sempre travada na falta de movimento dessas imagens. A falta de fluxo e consciência dos espaços, deixa o projeto lento, desajeitado e ainda mais fetichista. O pequeno pedaço fotografado é o saguão turístico e não consegue sair disso sem objetificar tudo que enquadra. O vídeo sem dúvida teria minimizado esse efeito e dado mais vivacidade para o movimento ininterrupto de corpos e seres, mas se bobear ele tava batendo a foto e guardando a câmera rápido. Vai saber. 

São tantas coisas que passam despercebidas da objetiva de “Centro” e o enquadramento é tão rígido, que a frustração só não é maior porque o trajeto Nova Iorque e Rio já entrega um pouco, mas sem dúvida, servirá de debate acadêmico nas cadeiras de geografia.

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