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Cenas de um homicídio – Uma família vizinha

O inimigo está ao lado

Por Victor Faverin

Cenas de um homicídio – Uma família vizinha

Por mais que o conceito e definição de família entre em discussão, é senso comum de que se trata da mais importante instituição. Pessoas que se amam e dividem, ou não, um teto estão envoltas em uma espécie de sacralidade devido aos sentimentos, muitas vezes conflituosos, que compartilham. Se você for uma mãe ou um pai e assistir ao novo documentário da plataforma de streaming Netflix, “Cenas de um homicídio – Uma família vizinha” (2020), dirigido por Jenny Popplewell, talvez tenha, ao final, reações que transitarão entre a revolta e a intensa necessidade de demonstrar afeto e proteção aos filhos e ao seu cônjuge. Tal conduta é incentivada desde o início da trama, assim como o anseio por entender o mistério aqui retratado.

O enigma é baseado no caso real da família Watts: o desaparecimento da esposa grávida (Shanann) e de suas duas filhas (Bella e Celeste) em 2018. Trata-se de um evento intensamente trágico e amplamente divulgado pela imprensa norte-americana, mas o espectador que nunca ouviu falar do ocorrido se beneficiará ainda mais da experiência em tela. Aliás, o documentário convida o público a acompanhar o início, os desdobramentos e a conclusão de todo o cenário como se fosse parte da equipe policial encarregada de solucionar o problema. Esse mérito é da edição da obra que, sabiamente, monta todo o quebra-cabeça de forma linear e traz, a todo o momento, novos elementos que tiram aos poucos a névoa envolta na história, mas principalmente do vasto registro de imagens e vídeos coletado pela diretora por meio da imprensa, da polícia, de conhecidos da família e, sobretudo, das redes sociais da própria mãe.

Assim, além da necessidade de contar uma história verídica e chocante, “Cenas de um homicídio – Uma família vizinha” ainda traz, indiretamente, a discussão sobre a superexposição a que certas pessoas submetem a si mesmas e a seus entes queridos. Não cabe, porém, julgamentos aqui. Seria desumano – e errado – atribuir esse componente como um atenuante a todo o horror que foi praticado. Não se deve impor culpa à vítima. Jamais. Contudo, Jenny Popplewell é certeira em pontuar e expor, mesmo que brevemente, o linchamento público a que os pais e demais familiares tiveram de lidar por conta do comportamento de Shannan. Desta forma, é desolador presenciar como pessoas sem qualquer tipo de envolvimento com o caso têm a capacidade de fazer pareceres definitivos e cruéis a respeito do que não conhecem. Trata-se de mais um fenômeno negativo dentro de outros positivos trazido pelas redes sociais: a legitimação sentida pelos seguidores em apontar dedos e condenar aquilo que não lhes é devido.

Desta forma, é possível dizer que “Cenas de um homicídio – Uma família vizinha” explora de maneira muito abrangente a quase totalidade das facetas envolvidas no mistério da família Watts. O documentário preocupa-se em ilustrar a quem está assistindo todos os fatos, desde os mais minuciosos, como o cardápio com os preços do restaurante em que o pai jantou, aos mais abrangentes, como a troca de mensagens entre marido e esposa que, com o passar do tempo, vão dando sinais de como uma relação pode se desgastar. Por vezes, utiliza-se de trilha sonora martelante e evocativa, como a demonstrar o aparecimento de pistas e hipóteses que levarão ao desfecho da história. Além disso, a metodologia policial em casos como este também é interessante de ver e o filme convida a adentrar nesse universo. Protocolos engessados que podem parecer irracionais, como perguntar sobre a existência de tatuagens como marca identificativa até mesmo nas crianças, mostram-se, no decorrer, necessários e úteis.

Aliás, “Cenas de um homicídio – Uma família vizinha” desmonta o mito divulgado pelo cinema e literatura de que é necessário esperar 24 horas para acionar a polícia em situações de desaparecimento de familiar. Cada minuto conta, ainda que isso não tenha sido definitivo nesse caso particular. Para quem não pesquisou sobre o ocorrido e assistiu ao documentário de peito aberto – como este que vos escreve – a revelação do mistério choca, ainda que tudo pareça apontar para uma mesma direção. Essa perplexidade talvez possa ser atribuída à imagem de sacralidade que temos da instituição familiar, seja ela composta por quem for, como abordado no início desse texto.

Ainda assim, por retratar um acontecimento tão recente, o documentário não consegue responder a uma questão levantada no final a respeito da motivação do crime. Para tanto, seria necessário um mergulho mais temporalmente distanciado do fervor que ele causou, bem como as considerações de peritos e psicólogos criminais. Ainda assim, o conteúdo do epílogo é um triste lembrete de como o inimigo pode, realmente, estar ao lado.

5 Nota do Crítico 5 1

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