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O Dilema das Redes

O retrocesso do avanço

Por Laisa Lima

Netflix

Uma droga, lícita ou não, pode provocar alterações corporais e físicas. Uma droga pode estar propensa a criar dependência e seu consequente vício. Uma droga chama seus utilizadores, de usuários. Se pensarmos bem, qualquer semelhança com a internet e sua relação com seus internautas, não é mera coincidência. “O Dilema de Redes” está aí para provar.

O Dilema das Redes (2020), documentário feito pela Netflix e dirigido por Jeff Orlowski, gira em torno dos depoimentos de ex-funcionários saídos de grandes empresas cibernéticas como o Facebook, Google, Twitter, Instagram etc; e também de uma desconstrução da ideia de “avanço tecnológico” como algo promissor, discurso que é reforçado pela participação de conhecedores do mundo digital citados acima, que logo de início deixam claro suas preocupações com o futuro da internet e seus adeptos, ou seja: o mundo todo.

O diretor aqui imprime um retrato paciente da questão discutida, que, na realidade, não há discussão. Comparado a outros longas com quase a mesma proposta, como por exemplo, “A Rede Social”, “O Dilema das Redes” apresenta fatores, um por um, abordados abaixo, que instigam no espectador uma nova e incontestável visão. E, por ser um documentário, essas ditas quase acadêmicas declarações envoltas nos ambientes tão acadêmicos quanto (os entrevistados aparecem bem formais), carregam um diferencial pedagógico aliado à bem organizada, pensada, e centrada montagem, focando na interligação dos depoimentos e na dinamicidade das falas.

Apesar disso, voltando ao início do texto, a colocação feita sobre drogas não foi em vão, e, quando citadas no longa-metragem, pode ser feita uma analogia com cenas de “Requiem Para um Sonho”, de Darren Aronofsky, produzido 20 anos antes de “O Dilema das Redes”, no qual o foco é inteiramente voltado para a interação de tais substâncias psicotrópicas com o ser humano. Aliás, visto as menções a outros filmes e a trama ficcional inserida, representações não faltam no documentário; a mais destacada, é a simulação de uma família afetada pela relação dos filhos adolescentes com as redes sociais, sobressaindo a inserção da subtrama de Ben, um dos jovens integrantes da família e das mídias virtuais, controlado e feito refém da internet por meio de uma espécie de “torre de controle”, composta por três condutores mais parecidos com algoritmos saídos da nuvem de um computador. Contando também com o auxílio de algumas animações bem feitas, tudo é intencionado a criar uma atmosfera simples, didática, onde o mais leigo dos espectadores, consegue acompanhar e captar a ideia central da forma mais clara possível.

Ainda no âmbito do enredo fictício existente no filme aqui discutido, nota-se que que os maiores problemas familiares vêm do uso excessivo das redes sociais por parte dos filhos, sendo isto repetida à exaustão ao longo da película. Nos é mostrado, então, a reação de cada adolescente diante dos malefícios de se viver em função de um aparelho. “O Dilema Das Redes” apresenta uma história realista na medida em que exibe as dificuldades dos membros desta conjectura familiar, focando, conforme a exposição dos assuntos por parte dos entrevistados no filme, nas consequências de tais pautas. É abordado temas como a dependência virtual na “vida real”,  emergindo questões com autoestima pela quase ausência de “likes” em uma foto, e sua consequente insegurança pessoal induzida por tal fato; e como o envolvimento com práticas pouco bem vistas por determinados grupos da sociedade, como o uso de drogas, ilícito em alguns países, como no Brasil. Tudo para obter a maior identificação possível por parte do público, que pode – apesar dos poucos, porém apenas necessários detalhes –, vincular, de alguma forma, as histórias com situações já vividas, ajudando a corroborar com essas ditas opiniões preocupantes sobre a alienação em relação ao uso irresponsável da internet já expostas na obra.

A fácil compreensão do objetivo de “O Dilema das Redes” se deve, também, às falas dos entrevistados que, além de dominarem o assunto por anos repetindo o mesmo discurso, conseguem nos incorporar à conceitos novos, como “tecnologia persuasiva”, um método que faz a pessoa ficar mais tempo conectada, a reduzindo a apenas um dado de informação. Os apresentados como especialistas no documentário, nos conduzem, portanto, à explicação de tópicos que reforçam a sensação de uma possível estranheza no espectador, passando por competições entre as marcas; por monitoramento de todas as redes sociais e até buscas no Google; por algoritmos que mudam sem ajuda de um programador; e, finalmente, por mensagens de ódio criadas e aperfeiçoadas na internet. Todos os quesitos constituídos para causar uma aderência à convicção principal da produção, estão nas aprofundadas e pacientes explicações dos participantes presentes neste documentário.

Um dos participantes – talvez o mais importante deles – é Tristan Harris, ex-designer do Google. Seu conhecimento minucioso de tecnologia, que soa para o espectador, como um forte senso de mudança, agregam a ele um papel de condutor daquele viés de pensamento, passando uma desejada credibilidade pela forma técnica em que conduz a sua fala acerca de sua vivência e estudo, transparecendo uma provável verdade. Dentro deste modo de gerenciamento, está a presença de termos que não haveriam sentido algum sem sua explicação, como a existências dos, chamados por ele, “caça níqueis” no celular, que seriam as propagandas que, seguindo a lógica do jogo, fazem do usuário da rede social um meio de extrair retorno financeiro a partir de sua escolha dentro da mídia. E, se o senhor Harris possui o título de “protagonista”, seus coadjuvantes são bem instruídos, sejam eles Shoshanna Zuboff, PhD em psicologia social, que fala, com convicção, que as mídias online precisam “vender certeza”; ou Jaron Lanier que, de forma igualmente convicta, apoia o desuso dos meios de conexão virtual.

Todo este aparato montado em “O Dilema das Redes” para aceitação de seu conceito central é transmitido de forma a se tornar quase incômodo. Conforme o documentário se alonga, certas exposições tornam a comparação com a vida fora do longa-metragem, mais crível. O objetivo de retirar a alienação contrapondo ideias vagas, de que a tecnologia e suas inteligências artificiais só trazem avanço, é concluído após o reconhecimento de efeitos, principalmente sociais, que a própria internet causa, seja no aumento da depressão e até suicídio entre adolescentes, por conta da pressão em querer pertencer ao padrão inalcançável de beleza divulgada em mídias como o Instagram; seja pelo perigo de crianças estarem expostas a conteúdos impróprios; ou seja pela indução de ideias questionáveis concluídas a partir do rastreamento de pesquisas e buscas na internet pela pessoa. Pensar que cada movimento é monitorado em detrimento ao lucro de outros, além do fato de que rixas e declarações intolerantes começam online, contando com a facilidade da propagação de fake news, e com apoio da própria rede social; é preocupante. A força que a internet possui, sendo ela capaz de transformações benéficas, ou extremamente maléficas, contribui para a ascensão de governos fascistas e proliferação de pareceres nocivos; além do envolvimento cada vez mais difícil de se desvincular por parte dos usuários, causado pela dependência tecnológica.

“O Dilemas de Redes”, entretanto, não mostra uma solução eficaz para o problema que o próprio documentário aponta, preocupando-se tanto em expor de forma mais completa possível algo urgente na sociedade, mas esquecendo-se de orientar os cidadãos a que modelo seguir. De qualquer forma, como manifesto ou como instrumento educativo, o filme funciona na mensagem que deseja passar, visto que conclui o difícil trabalho de estimular o espectador a pensar e querer mudar. Mudar algo que, aliás, pode nos encaminhar para o retrocesso do avanço, já que a presença da tecnologia, significa (teoricamente) um avanço. O curioso é que o longa-metragem termina encorajando o público a começar uma revolução, mesmo que aos poucos e sem um norte certo. Outra curiosidade é: eles possuem um site. E fizeram uma produção para uma plataforma online. O que isto significa? Ainda não sabemos, há muito para se modificar.

Trailer

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