Casa

Faltou o psicológico que estudou para aguentar

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2019

Um casa não é só uma casa. É um casulo de memórias, sensações, fisiologismos  e sentimentos, que se fundem em fragmentos lembrados, confiáveis ou não, visto que nós somos protegidos por nossa mente que prefere salvaguardar projeções-imaginadas que a concretude dos fatos. Uma casa é também um simbolismo de toda base que recebemos para construir nossos caminhos. A “Casa”, de Letícia Simões, “quer dialogar” ao pintar imagens de azul e redescobrir se o passado era assim tão “paraíso”. A narrativa, por fotos pessoais da infância, tenta recriar essas memórias, dando conto às ruínas, como por exemplo, a bebedeira do pai e “caranguejos cozinhando”.

“Casa”, assistido durante o Festival do Rio 2019, é um filme pessoal. Que persegue a ideia remota da felicidade. “Sim, claro que foi feliz, era criança”, responde-se. A câmera subjetiva e caseira vem da própria diretora, protagonista, entrevistadora e filha, parte integrante da família em foco, em “uma Salvador caído” (“cidade exótica”). A mãe aumenta sua fragilidade perante às lentes com a metalinguagem-bastidores de um “fio desencapado do som direto”. É um documento de uma “criação não ortodoxa”. O longa-metragem é um embate. De um lado a filha “querendo lavar roupa suja” existencial e do outro a progenitora com “receio de conversar e se cansar”. “Um psicológico estudou para aguentar e tem competência”, diz-se, remetendo ao espectador a inferência de obras temáticas semelhantes, como “Não é um Filme Caseiro”, de Chantal Akerman; “Os Dias com Ele”, de Maria Clara Escobar; “Construindo Pontes”, de Heloísa Passos, e até mesmo “Minha Mãe é uma Peça”, de André Pellenz.

Dessa forma, o documentário consegue “autorização” embasada de seu público para abordar “vida e obra de sua mãe, que parecia afundar em si”. Ainda que os contos sejam reais, o projeto é demasiadamente pessoal, soando ingênuo em seu desenvolvimento, quase amador, a parte da filha. Ora até pretensioso ao expor suas vidas comuns (câmera estática, conversas estendidas, “arquivos implacáveis” e exposições em micro-ações). Mas é quando a “inimiga” (“De frente com a Gabi”) entra em ação que nós sentimos a força e potência do filme. Sua mãe, espirituosa sem rir, falando de sua bipolaridade e síndrome do pânico, é a grande personagem (uma “figura”), “morte cômica em Ferry Boat”. “Guardar é o primeiro passo para arquivar”, rebate-se a “vocação para arquivista”, que “nunca acessa por causa da desarrumação, corrente e cadeado”. E que aumenta a interpretação e “emoção por estar tendo importância”. A filha (“é o próprio hino nacional e a principal causa da depressão”) narra na terceira pessoa (“nós contra o mundo todos os dias”). “Essa depressão não acaba”, diz-se, entre “atrizes encenadas” e vitimismo “teatral”. A mãe da mãe, sua avó, pragmática, realista, direta e super lúcida, é ainda mais “figura” (“doente de cu quente”) nas conversas “loucas” e “dramáticas” com graça e “poética da prosa”.

A diretora, a filha e neta, em “Casa”, estimula potencializar o “barraco” verbal. Papos ficam bruscos para conseguir mais dramas, reverberando assim mais encenação (“ideias férteis”, “diálogos” e “repressão”), como a confissão de sua mãe dizendo que “sofreu violência física e psicológica da mãe (avó de Letícia)”. Há um “distanciamento quase cruel” tanto se for verdade, quanto ficção. Nós percebemos que tudo isso é uma retroalimentação de loucuras, impaciências, co-dependências trocadas de forma cúmplice e que só assim elas, três mulheres, de três gerações, iguais nas reações (quase à moda de “Uma Mulher Sob Influência”, de John Cassavetes), em seus mundos únicos de “sutileza de um elefante” e de gostar de brigar, conseguem não só se entender, mas principalmente expressar amores, felicidades, carinhos particulares e “água de coco para acalmar”, entre fogos de artifícios, Cuba e luto na própria fantasia do caos. “Muitos lados, alguns normais”, diz-se.

“Casa” agora inverte sua perspectiva. A mãe entrevista a filha. “De acordo com Maitê Proença, todos são cremados e ninguém tem certeza das cinzas”, diz-se e complementa “Obsessor é o subconsciente, este sim, implacável”. O filme é uma passional terapia de choque, que permite a catarse-grito à “rainha do mundo autoritária e arrogante”, usando a memória para suavizar a dor. “Acredito nas fotos e em Freud, não em Deus”. E quando Letícia Simões se impõe e intensifica a atitude, iguala-se a sua mãe, provando por a mais b que a música “Como nossos Pais”, por Elis Regina, nunca deixará de ser certa e de tema universal. A pergunta retórica que fica é: Lavar toda essa “roupa suja” ajuda a recomeçar? Confrontar sem a “competência de um psicológico” torna saudável o processo atiçado? Nunca saberemos, porque egos dificilmente são controlados e, ao menor sinal de guerra, ganham força descomunal com objetivo de aniquilar seu oponente, independentemente família ou público que assiste ao filme e é “jogado” em intimidades “escandalosas” e confissões “poderosas”. Na dúvida, procure um terapeuta especialista!

“Iniciei o projeto pensando em investigar a tessitura das relações familiares, tendo minha família como ponto de partida, e daí buscar um elo com a história da Bahia e do país. Mas, ao caminhar, outras questões foram brotando, incomodando, agregando. E toda a tensão desembocou em caudalosas possibilidades. Tinha a relação entre mães e filhas em diferentes gerações e todas as possibilidades pertinentes a essas relações. E investigar quais são os personagens que interpretamos para dar conta de todos os personagens que desejamos um dia ser”, explica a diretora.

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