O Homem Que Matou Dom Quixote

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Ser ou não ser, eis minha interpretação!

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018

Muitos filmes na história do cinema transpuseram um longo tempo, tornando-se épicos, entre a realização e a exibição, alguns com mais de vinte anos, como é o caso do brasileiro “Chatô – O Rei do Brasil”, de Guilherme Fontes, e, com mais de quarenta anos, “O Outro Lado do Vento”, de Orson Welles, que foi lançado pela Netflix.

Na obra, em questão aqui, exibida como o filme de encerramento fora de competição no Festival de Cannes 2018 (e que quase não aconteceu pelas desavenças entre a equipe técnica), “O Homem Que Matou Don Quixote” fica no meio do caminho ao levar “vinte e cinco anos para ficar pronto” (anunciado na primeira cena).

Dirigido por Terry Gilliam (de “O Teorema Zero”, “Medo e Delírio”, “Brazil: O Filme”, “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado”), o longa-metragem, livremente inspirado no livro “Don Quixote” de Miguel de Cervantes Saavedra, em 1605, até acontecer na tela, foi considerado um dos filmes mais amaldiçoados.

“O Homem Que Matou Don Quixote” viaja o espectador em uma narrativa orgânica de suspensão de tempo propositalmente incompatível, envolto por uma narração ao estilo de grandes aventuras com um que melodramático na voz. Inevitavelmente, seu diretor traz a atmosfera Monty Python de ser. Esta comédia, de metalinguagem descompassada, altamente alegórica e histérica, busca intercalar realidade ficcional e uma caseira credibilidade ilusória, pelo surrealismo das ações e reações que encontra a naturalidade do acreditar.

É um filme dentro de filme, que quebra a própria ordem para confundir, com o intuito de não só se aproximar da personagem principal, mas criar no público a sinestesia da loucura abordada, entre um diretor rígido que amplia a teatralidade das interpretações. A exigência requer a potencialização do método interpretativo do sistema Stanislavski.

E assim nós somos imersos em uma criação de surto em processo e movimento, mudando-se caminhos ao acaso e à subjetividade das percepções. O “conceito é ridículo” em uma Espanha real, suada, absurda, fantástica e completamente livre e que a própria atemporalidade confunde os tempos existentes.

“O Homem Que Matou Don Quixote” é também um estudo da arte cinematográfica pelas crenças idiossincráticas e intransigentes de seu diretor daqui, Terry Gilliam (será um alter-ego do de lá?), que “odeia efeitos especiais”, que questiona o “fazer cinema” e que insere estranheza e o querer pensado do fora de tom. E aos poucos o filme se permite perder amarras e caminhos, e cada vez se desenvolve mais por delírios (personificados), entre vendedores de dvd piratas com o nome do filme (a “cópia”), gênios com visão e digressões que explicam a história de como começou.

É um filme de graduação, ora com preto e branco, ora com a utilização de lentes anamórficas da filmagem digital. É uma experiência quase esquizofrênica. São dramas em realidades paralelas de ficções.

“O Homem Que Matou Don Quixote” é sobre o propósito-necessidade de um ator, que precisa abandonar a própria vida para encarnar o papel (acreditar sem pestanejar por nenhum segundo), independente de ser um não ator que recebe ensinamentos de ser normalmente um Dom Quixote “cerebral” (o ator não consegue mais sair da personagem). “Muito ingênuo ou muito maluco”. Será tudo um sonho pela ambiência exagerada de situações-pastelão?

A solução de um é sair para “viver” o lugar, “encontrando” o passado real na sua frente, que se vê quebrado. Tudo com interatividade, como por exemplo, legendas são retiradas da tela. São passionais, inocentes, sarcásticos, circenses, impulsivos e urgentes. É o antigo e moderno. A loucura neste caso torna-se real: inspiração, policial gago, procissão, carnaval, “forças das trevas”, blasfêmia. “Tenha controle e o mundo segue”, ensina-se.

“O Homem Que Matou Don Quixote” é uma aventura unida e compartilhada de “espírito verdadeiro”, com a “língua protestante do inglês”, com “uivo” e com “morte”, em outras épocas mais anti-naturalistas. “Sancho, um ignorante. Dom Quixote, um sabe tudo”. O espectador consegue inferir, sem achar que viaja demais na batatinha, que há um que do seriado “Westworld”, por causa de seu cavaleiro errante, revivendo o passado épico, com Ariano Suassuna, pela fantasia lúdica de imaginação infantil.

E o roteirista, que é o próprio diretor, não satisfeito, faz com que o filme adentre mais nas confusões mentais. “Quem escreve este papel? O que é real?”. “Nada é real”, alguém rebate. É a busca pela naturalidade e pela encenação espontânea. Sim, chega um momento, que nós não sabemos mais o que esperar e por qual direção “O Homem Que Matou Don Quixote” segue. Uma maestria de se perder para criar? É físico, metafísico, visceral. Seu existencialismo é “mutilado”, cruel, queimado e amadoramente filosófico-psicanalista em “apagar” o antes para conviver com o “novo” do agora. Uma viagem que ou o público embarque ou pede para sair.

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