Conquistar, Amar e Viver Intensamente

Sobre os encontros errados para chegar ao certo

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018

Todo e qualquer ser humano, ainda mais se for cinéfilo, possui diretores referências. No nosso caso, um deles é o francês Christophe Honoré (de “Canções de Amor”, “Metamorfoses“, “Homem no Banho“, “As Bem Amadas“, “Minha Filha, Você Não Irá Dançar“), cuja característica principal é unir a narrativa clássica Nouvelle Vague com uma modernidade cotidiana do agora, mesmo que suas épocas sejam passadas. O mais recente filme “Conquistar, Amar e Viver Intensamente” é uma homenagem à vida, uma ode ao amor em respeitar suas idiossincrasias, quereres, humores, limitações, hesitações, medos, impulsos em um universo naturalista e espontâneo do início dos anos noventa. A maestria é definitivamente seu roteiro com suas informações literária-cinematográfica-filósofas que se metaforizam na construção atual dos personagens, definindo próximas ações e passionalidades.

“Conquistar, Amar e Viver Intensamente” humaniza as relações humanas e suas consequências, entendendo as escolhas realizadas (como se fosse quase obrigatório vivencia-las), que por sua vez levaram a sofrimentos. Honoré cria seu ingênuo e puro mundo de crença no amor real, que atravessa o tempo, que inicialmente acontece pelo instinto sexual animalesco (e pelo estimulado encanto da beleza e da juventude – um que de “Morte em Veneza”, de Thomas Mann) para depois ganhar a maturidade do carinho perpetuado. O que se conquistou, não se perde mais. O amor (sem problemas em ser confessado) é muito mais que suas formalidades. O não banho não faz com que o namorado fique menos importante. É um mero detalhe. É orgânico. O cheiro representa também a entrega à paixão. É sobre ser “velho hoje”, antiquado, precisando constantemente a adaptação do novo. É analisar relações passadas e qual dos dois foi mais “complicador”. “O amor era inflexível”, diz com naturalidade não sensível sobre o viver e o morrer. Com infantilidade ou não. Com escolha de manter o orgulho e finalizar com dignidade. Da aparência.

Não há liquidez, tampouco casualidades. Há a verdade intensiva do desejo, dita com o típico humor francês de sarcasmo implicante quase agressivo e há a necessidade de não guardar nada: rancores, dúvidas, segredos e motivos. Eles explodem o lado de fora, expondo sem ressalvas, hipocrisias e medo do ridículo, nunca, mas nunca mesmo guardando o que poderia ser. Assistir a im filme de Honoré é compreender a essência de seu povo natal. Entre cartazes dos filmes “Querelle”, de Rainer Werner Fassbinder, “Boys Meet Girl”, de Leos Carax, e “Orlando” com Isabelle Huppert, e visita ao túmulo de François Truffaut em Paris, “Conquistar, Amar e Viver Intensamente” é uma grande metalinguagem, que faz questão em não esquecer os “fantasmas”. Outra característica mágica de conto de fadas realista é a “permissão”de cada um ser o que quiser. Homens ou mulheres. O desejo não encontra gênero. Quem se limita acaba morrendo sem viver o todo.

Pode ser considerado como um filme coral, por separar os núcleos de seus personagens que se encontram pelo mesmo querer. É a “oportunidade da aventura” que se desenvolve por elipses que vão e vem, livres no tempo e espaço. É também uma fábula. De duas pessoas que passaram a vida amando errado para terminar com a certeza da eternidade. Mas nada é eterno, tampouco fantasioso. A realidade nos assalta repetidamente, como um cruel jogo de cartas do universo que desestrutura os encontros “maktub”. “Conquistar, Amar e Viver Intensamente” é muito mais que apenas uma observação do universo gay. Muito mais. E sim, é um estudo de caso antropológico sobre as diversificadas formas de se encontrar. Os lugares inóspitos e desertos à “pegação”. Quando um é agraciado com o prazer, todos ao redor invejam e potencializam suas solidões, que faz a entrega ao impulso.

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