Callado

O lança-perfume e a unicidade do Brasil no Mundo

Por Fabricio Duque

Se não fosse pela letra ele a mais em seu nome, Antônio Callado (1917-1997) seria considerado o simbolismo máximo de nosso Brasil por representar uma metáfora antagônica de incessantes questionamentos-conflitos. O jornalista, poeta, escritor, irônico e desbravador do próprio vernáculo sempre pautou seu otimismo crônico nos mais idiossincráticos comportamentos do povo brasileiro, como por exemplo, o lança-perfume transformado em alegoria-coloquial. A realizadora Emília Silveira traz agora o documentário “Callado”, uma “biografia-ensaio”, às telas dos cinemas brasileiros,  ainda que durante o nível crítico vermelho de uma pandemia que não parece terminar, para comemorar o mês do aniversário do escritor.

“Callado” (2017), com roteiro da diretora e de Miguel Paiva (com colaboração de Patricia Silveira), desenvolve-se por depoimentos de conhecidos e da família, imagens de arquivos, palavras grifadas em tela, entrevistas de época e por uma edição intercalada e linear de ciclos-blocos temporais. O espectador é convidado a ouvir neste filme-livro, porque suas ideias transgridem uma verdade que não mais queremos conhecer e dialogar (talvez por ferir demais nossas zonas de conforto). O tom duro, incisivo e diretamente argumentativo transmuta a própria palavra, a desdobrando em camadas de concretista poesia política-social. Aqui, o filme conta sua vida pessoal e sua carreira, as duas quase inseparáveis e dissociáveis. Sem esquecer (com cenas do filme) de “Masculino Feminino” (1966), de Jean-Luc Godard, e a assinatura da petição para libertar os oito presos políticos, artistas e escritores no Rio de Janeiro (“apenas por terem manifestado seu desacordo com a política oficial, protestando contra esse atentado à liberdade de expressão tradicionalmente conhecida no Brasil”), um deles o nosso protagonista desta história-crítica. E/ou do encontro com Fidel Castro. A lista de realizações é grande. E Emília consegue costurar passado com a estética jornalística do hoje, não perdendo a identidade ao conservar uma nostalgia modernizada e readaptada ao presente.

Em seu livro “Quarup”, o virtuosismo de organicidade espirituosa reina nas páginas e na sensação que fica em seu leitor, fornecendo perspectiva e esperança de um futuro possível. Mas em sua última entrevista, em 1997, o realismo pessimista assusta, especialmente no exato dia de hoje. Os indivíduos da “pátria amada Brasil” com “Deus acima de tudo” sofrem a maior crise apocalíptica de suas vidas.  E tudo por tatuar em suas vontades, em seus comportamentos, em suas ações e em suas repetições a “definição” de o que é ser brasileiro. Comprovadamente, não só por fatos empíricos, o governo brasileiro ainda pensa como fará a vacinação, visto que “deixou passar” os acordos-contratos. Antes de continuar, imediatamente reagimos com um “O que Callado escreveria?”.

Pois bem. E não é que o documentário em questão consegue sintetizar todas as nossas aflições e vulnerabilidades do momento por frases precisas e pontuações estendidas do homenageado, que “passou a vida metido na busca deste mistério (o mundo dos indígenas)” e que “forçou sua opinião”. “O Brasil tem essa coisa de muito decepcionante. A coisa fica sempre assim um pouco distante, como se as pessoas pensassem demais e sentisse de menos. Isso a gente sente, eu sinto isso. Acho que em toda a História do Brasil. Na minha vida, eu diria que o Brasil tem sido também uma série de falsas expectativas. Hoje, eu realmente não acredito em coisa nenhuma que possa acontecer no Brasil. Não vejo. Você vê que não há saída. Não há saída”, disse Antônio Callado ao jornalista Maurício Stycer, em 1997, da Folha de São Paulo. E morreu uma semana depois. Nos perguntamos também o porquê de o Brasil nos fazer tão mal e ainda assim continuarmos. Síndrome de Estocolmo? “Uma paixão inútil, porque o Brasil não dá certo. Arma e se desarma”, diz o crítico/escritor Davi Arrigucci sobre e os “ritmos de confiança e de repente de desalento”.

“Callado”, com seu ritmo costurado, é uma obra de observação-aprendizagem, mas sem o artifício do didatismo. A narrativa por ciclos-blocos acontece pela divisão dos acontecimentos específicos, pausados para melhor aprofundá-los. É também uma obra-adjetivação. Seus convidados definem traduções sobre este homem que não ficou calado e o “espectro que rondava a Europa”. Este é muito mais que um documentário-biografia (por acontecimentos: a cobertura radiofônica desde Londres, para a BBC, da Segunda Guerra Mundial; a viagem ao Xingu para localizar os ossos do Coronel Percy Fawcett (1867-1925); a ida em fins dos anos 1960 ao Vietnã do Norte em luta contra os EUA. Callado engajou-se ainda, no início da década de 60, na cobertura da luta pela reforma agrária no nordeste brasileiro, a partir das Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião).

Muito mais. É uma obra que traça uma arqueologia pensadora de nossa História, especialmente pela montagem articulada de Vinicius Nascimento. Uma antropologia de psique existencialista que encontra a metafísica do hábito-costume. “Callado” tem produção da 70 Filmes, em coprodução com Globo Filmes, GloboNews, Canal Brasil e Sax Driver. Com depoimentos da jornalista Ana Arruda, viúva de Callado, da filha Tessy Callado e, também, de jornalistas e escritores como Carlos Heitor Cony, Davi Arrigucci, Matinas Suzuki, Mauricio Stycer, Sérgio Augusto e Wilson Figueiredo. “Callado” é um filme para se ouvir, se ler e para pensar mais sobre o que aconteceu do motivo de pararmos de nos importar, lutar e falar diálogos. Nunca “cálice”. Uma obra para não se calar e para continuar acreditando que “cariocas são o povo mais legal de todos”.

Trailer

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