Cadê Você, Bernadette?

Cirandas à Parte

Por Jorge Cruz

A boa recepção a “Cadê Você, Bernadette?” dependerá obrigatoriamente do entendimento do espectador sobre a protagonista Bernadette Fox (Cate Blanchett) e suas atitudes e comportamentos ao longo do roteiro que adapta o sucesso editorial de Maria Semple. Caso chegue à conclusão de que há uma espécie de romantização da depressão, uma linha argumentativa que não foi comprada por nós mas que se vislumbra como provavelmente aceita, toda a boa receptividade resta comprometida.

O grande mérito de uma obra que se abre em inúmeras formas de entendimento é da atuação de Blanchett. Um equilíbrio excepcional de ações e expressões, que permitem até mesmo que os adeptos da ultrapassada visão de uma mulher em crise como neurótica encontrem símbolos no filme que os façam felizes. Há uma maneira de transmutar, de tornar complexa toda e qualquer decisão da personagem.

O roteiro escrito por Richard Linklater ao lado de Holly Gent e Vince Palmo (repetindo o trio de “Eu e Orson Welles”) nos apresenta Bernadette, uma arquiteta reclusa que sai de casa apenas para buscar sua filha Bee (Emma Nelson) na escola. No restante do tempo ela se utiliza de uma secretária virtual, chamada Manjula, que lhe fornece tudo o que precisa. Em direção oposta a essa exclusão da vida em sociedade está seu marido, Elgie (Billy Crudup), um homem que desconta a frustração do que ele entende como família desarmônica na absorção de mais trabalho. O caldo entorna quando Bee pede que as férias se passem na Antártida e Bernadette, para a surpresa de Elgie, aceita.

A linguagem de “Cadê Você, Bernadette?” remete ao que o cinema dos Estados Unidos faz de mais indie. São inserções informativas ou bem humoradas, como o uso de uma metáfora de golfinhos na construção de um raciocínio que levará à aversão por modernidade da protagonista. O passado é contado a partir de falsas reportagens e a introdução dos personagens se dá quase como se mostrasse que são personalidades construídas em laboratório. Linklater adiciona uma espécie de “Black Mirror” em seus episódios mais suaves para ampliar o debate para os riscos da alta tecnologia. Porém, onde o longa-metragem funciona melhor é na aversão social de Bernadette, que está presa na fórmula mágica dos nossos tempos: ansiedade aliada à insônia.

O que torna o filme tão fundamental para seu público-alvo é a atualização do revisionismo crítica da sociedade norte-americana com a grife de um cineasta com experiência nas interações humanas como objeto. A montadora Sandra Adair, presente em todas as grandes obras do diretor, faz um trabalho impecável de edição – ficando a sensação de que não há excessos ou buracos na história. Um trabalho muito mais simples do que em “Boyhood: Da Infância à Juventude”, pelo qual possui sua única indicação ao Oscar. Óbvio que elementos da trama avançam pouco – alguns deles até mereciam mais espaço. É possível que lá no início do segundo ato o espectador se pergunte porque Audrey (Kristen Wiig), vendida como antagonista ao reproduzir valores torpes como o estímulo à competição e incentivo à visão meritocrática desde a infância não ganhe tanto espaço na tela. Nessas horas o subtexto de Semple ganha força, mostrando o quanto a conveniência transforma nosso trato social. 

Mesmo assim, confiando nas representações trazidas por Linklater e comprando a obra como uma trajetória de reencontro consigo mesmo, essa pulga da romantização da depressão fica atrás da orelha. Isso porque Bernadette é uma protagonista que foge do diagnóstico mas apresenta gatilhos. O mais incisivo é o estoque de remédios controlados em uma garrafa de vidro, denotando uma tendência de suicídio planejado. Seu exotismo criado em contraste com a polidez falsa da classe média norte-americana cria um ambiente talvez descolado demais para tratar de certos assuntos. Mesmo que Cate Blanchett doutrine o melhor que uma atriz pode extrair dessa personagem, a forma de encarar a grave crise existencial é tão festiva quando em “Capitão Fantástico”, por exemplo. Aliás, quem ousa ler críticas como essa para decidir se assiste ou não ao filme, precisa saber que essas obras dialogam de certa forma na força de seus defensores e detratores. Se a saga daquela família incomoda por ter uma metodologia de “esquerda cirandeira”, para usar uma expressão sem a intenção de generalizar, é provável que “Cadê Você, Bernadette?” cause o mesmo desconforto. Já que comunga do entendimento de que a produção estrelada por Viggo Mortensen é uma das melhores dos últimos anos, tal qual quem redige esta crítica, encontrará na nova obra de Linklater um excelente filme.

Já o trato com questões entre mãe e filha, além da sororidade feminina que encerra discussões e competições desnecessárias – mesmo que tratadas sem o mesmo peso – são expostas de forma mais eficiente. Há em Elgie uma crueldade nas ações, que o roteiro tenta justificar como frustração, que potencializa o sofrimento de Bernadette. Ao acusar a esposa de fugir de suas responsabilidades do alto de seus privilégios e estabilidade do padrão de homem bem sucedido, o filme quase nos convence de que o ponto de virada da personagem passa mais perto de varrer o embusteiro do que procurar um resgate pessoal.

Só que mesmo com tantos senões, muitos com força para tornar irremediável a apreciação do longa-metragem, há um envolvimento nesse caminhar da protagonista que emociona e diverte em “Cadê Você, Bernadette?”. Uma trajetória de desilusão com a realidade, de aceitação das condições da sociedade e de reconstrução de sua figura que ganha por ser sensível, mesmo que na problematização não seja tão sensato.

 

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