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Breve Miragem de Sol

A cidade nossa de cada dia

Por Fabricio Duque

Globoplay

Glauber Rocha deixou um legado a sua família. Não para fazê-los repetir seus discursos e urgências imagéticas, mas pela influência do pensar e buscar possibilidades artísticas. Paula Gaitán seguiu o caminho do existencialismo etéreo. Já seu filho Eryk Rocha (de “Transeunte“, “Jards“, “Campo de Jogo“, “Cinema Novo“), a estética apurada do olhar, traduzindo movimento em poética coloquial. Assistido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2019, seu mais recente filme “Breve Miragem do Sol” é uma experiência sensorial que personifica o psicológico em conceito orgânico. A câmera, subjetiva e embaçada, muito próxima, como se obrigasse o espectador a participar da ação, retrata fragmentos-flash. Nós percebemos que o personagem principal, Paulo, (o ator Fabricio Boliveira, que venceu na categoria de Melhor Ator no Festival do Rio 2019) está como um motorista de taxi, entre instantes transitórios, passageiros mimados e jovens machistas (típicos “riquinhos abusados com ares de poder”, que apelam ao clichê do “sabe com quem você está falando?”).

“Breve Miragem do Sol” (2019) também nos conta que Paulo está com problemas pessoais, no limite da raiva e “em ponto de explodir”, em meio a uma cidade integrada, real, comum, ordinária e transeunte, com suas “engrenagens” e seus barulhos-ruídos já característicos da ambiência natural. Nosso protagonista é mais de um que procura a sobrevivência do dia-a-dia, com a “esperança, a última que morre” da foto do filho (a breve miragem do sol na escuridão da noite), ainda que a “gasolina tenha aumentado” e a concorrência do Uber, dificultando mais ainda sua jornada. Entre o caos mundano de um submundo abandonado, histórias ouvidas, fake news e flertes (com outras pessoas também casuais, a enfermeira Karina – interpretada pela atriz Bárbara Colen), Paulo vive o minimalismo, quase de auto-ajuda, de uma corrida por vez.

A tensão aumenta, como se o medo iminente viesse da própria transmutação do ser humano, ganhando cada vez mais perigo. Papos populares, a timidez do segundo encontro, o cansaço intermitente, tudo documenta o “coração de um brasileiro”. A câmera direta (mais primitiva) pausa a vida, e com a forma “mosca” (de captar sem se perceber), adentra em diegese, dilacerando sem julgar o universo próprio retratado. Assim, nós somos “engolidos” pela imensidão do que assistimos. Sentimos os dramas, quereres e necessidades impossibilidades de descanso, tudo pelo lema utópico de que “brasileiro é guerreiro e não desiste nunca”.

“Breve Miragem do Sol” é uma fábula-liturgia. De uma repetição que reinventa o retrocesso ao invés de aceitar o tão lutado “progresso”. É um “diário do trabalhador”, termo cunhado por Eryk, cuja narrativa estreita as barreiras da ficção e do documentário, até porque, ainda que testemunhemos uma vida encenada, toda influência do papel busca abrigo e reflexo na realidade nua e crua, sem cortes de cenas e takes refeitos. O filme possui o apuro técnico de uma trilogia inicial da fotografia, montagem e atuação, que desemboca no contexto da direção. Essa maestria-irretocável ganhou os três prêmios no Festival do Rio 2019.

A fotografia de Miguel Vassy não só busca captar o invisível do momento, como transcender a percepção do olhar do público, criando uma transparência de proteção, que suaviza o estar fora da tela. A montagem de Renato Vallone complementa a mise-en-scène e fornece ritmo e atualidade presencial, incorporando fluxos, pulsações e provisórios.  E entre os dois, o ator Fabricio Boliveira não se entrega, como se torna Paulo. Eryk Rocha talvez tenha recebido tudo pronto, contudo foi a “cereja do bolo” para orquestrar tudo e todos. “Breve Miragem do Sol” é um crítica social, política, econômica e principalmente comportamental, esta última por padronizar pessoas em condicionadas reações. Nos damos conta que a vida nada mais é que um acontecimento líquido, que preocupa o momento com uma falsa projeção do futuro, mais decadente e pendular com o passado.

O roteiro, escrito por Eryk Rocha, Fábio Andrade, Julia Ariani, é sobre a cidade que existe na cidade. De trajetos e caminhos que levam de um lugar a outro. Um meio real. De vivacidade não turística. Suja e em ruínas, entre a trilha musical de Ava Rocha e Negro Léo e produção de Walter Salles. O espectador consome junta a epifania de solitários em estágios sonâmbulos na madrugada, hora em que todos os “gatos são pardos”, a magia desaparece e a verdade descortinada mostra a verdadeira face.

Trailer

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