Boca de Ouro

A adaptação dos Nelsons

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2019

Com uma gala bastante sofisticada, a refilmagem de “Boca de Ouro” de Daniel Filho buscou aproximar o público da peça homônima de Nelson Rodrigues. As comparações com os longas anteriores é inevitável, em especial o de Nelson Pereira dos Santos, de 63, protagonizado por Jece Valadão. Não apenas pela trama adaptada, mas pelos enquadramentos próximos, pela estrutura parecida e principalmente pela verve explosiva dos personagens.

Enquanto o filme de Nelson traduzia o espírito do subúrbio carioca, da Zona Norte, Daniel explora um tom mais comercial para a obra, buscando uma aproximação clara com o grande público, tendo assim o mérito de buscar uma popularização maior. A consequência disso é uma pasteurização de uma estética própria do jogo do bicho e da marginalização de um poder que se detém através do medo. Ainda que o novo projeto busque uma espetacularização da violência, buscando esse quesito brutal da história, não consegue ser tão visceral quanto o original, pois ser mais gráfico não significa mais violento. Mas em alguns momentos Marcos Palmeira consegue se impor com sua insanidade, deixando claro a diferença maior entre as interpretações, Jece era mais imprevisível, mas Marcos consegue um nível de canastrão alucinado que realmente merece destaque.

Esteticamente o filme ganha muito na acessibilidade mas perde gravemente em seu espírito. Silvio Guindane, faz um Caveirinha com personalidade, seu estilo malandro que se utiliza de cada fragilidade alheia para subir na carreira, foi muito bem encarnado pelo ator. Malu Mader vive uma GuiGui que alterna bem entre suas emoções, entre o desprezo e a agressividade, mas com um ar mais expositivo, pela característica de Daniel Filho. O mesmo podemos dizer sobre Lorena Comparato e sua Celeste, que se destaca em apreciar um desdém curioso.

Não há grandes inovações morais na leitura contemporânea, a misoginia permanece, a violência descarada e o abuso de álcool, mas o diretor se esforça em concretizar uma leitura epocal dos acontecimentos dramaturgos, uma ode à um Rio de Janeiro assassinado com o tempo, conservado pela arte. Contudo o louvor da escolha é compactuar com parte das mudanças do mundo com um respeito parcialmente contundente, mas compreensível.

A linguagem que Daniel Filho propõe ao novo “Boca de Ouro” não difere muito dos produtos comerciais convencionais, são close constantes, um plano sequência ou outro que se distancia brevemente dos demais. Enquanto a fotografia busca chamar atenção para um contraste ou um corte de luz específico, não percebe que permanece seguindo uma estilística padronizada que é perpetuada pela Globo e outros monopólios de produção cinematográfica nacional. Uma breve sofisticação em um plano ou outro, não destaca o projeto à um pódio que deve ser mencionado, pois acaba caindo em uma tentativa frustrada de programar uma agenda que busca uma conciliação desnecessária em uma obra de Nelson Rodrigues.

A montagem segue a linha clássica da narrativa, sem grandes menções neste texto, mas mantém um ritmo bastante agradável ao longo da projeção, sem prolongar demais a experiência. Assim o espectador consegue desfrutar da trama do bicheiro mais temido de Madureira sem que haja um esforço de paciência, os noventa minutos passam voando pelos olhos do público. O projeto é bastante eficiente em traduzir a acessibilidade das obras do autor original às telonas, catapultado por atores reconhecidos através das telinhas, as identificações tornam-se gatilhos ainda mais rápidos.

O destaque fica por conta dos atores que catapultam seus personagens a ares distintos com rostos tão conhecidos. Marcos Palmeira consegue traduzir em pequenos detalhes uma possibilidade nova para o eterno personagem. Infelizmente alguns recursos estilísticos acabam se revelando vaidades desonestas com o projeto, como cenas em preto e branco, onde o vermelho se destaca da paleta cinza.

“Boca de Ouro” de Daniel Filho é um prato cheio para quem busca uma releitura didática da narrativa clássica, mas acaba reverenciando excessivamente o texto original e a obra de Nelson Pereira dos Santos, perdendo parte de sua identidade. A adaptação consegue ser divertida, arrancando algumas risadas da vasta plateia (repleta de convidados) do Odeon lotado, demonstrando a verve popular que o filme traduz e pode vir a ter algum sucesso em seu lançamento nos circuitos comerciais. Porém, a escolha de aumentar a violência à um tom gráfico mais acentuado pesa na balança. Nos resta aguardar.

 

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