Black Medusa

Um conto feminista em nove noites

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Roterdã 2021

Um conto de fadas (Irmãos Grimm de ser) noir moderno em nove noites sobre uma super-heroína feminista, que salva na noite mulheres do machismo estrutural dos homens “ogro”, como o assédio nas boates. “Black Medusa” faz revolução por uma misteriosa femme fatale, à moda da personagem de “Killing Eve”, que justifica sua psicopatia com justiça. Exibido na mostra competitiva do Festival e Roterdã 2021, o filme, que evoca o espírito da figura mitológica Medusa (e o poder de matar pelos cabelos-cobras), apresenta-se curioso por ser realizado por dois diretores tunisianos, Ismaël e Youssef Chebbi, estreantes em longas-metragens, que acima de tudo querem apresentar um retrato da Tunísia moderna, uma “uma cidade que combina prédios de escritórios frios e sem rosto com uma vida noturna exuberante”.

“Black Medusa” narrado em tom fabular é filme-lady-vingança de gênero (um fantasioso “giallo italiano”), porque devolve-rebate a dor do prazer-gozo. Uma assassina, surda-muda, com orgasmo e alegria no olhar, que se torna o mito real por uma faca de duzentos anos, o que a faz ultrapassar e quebrar o controle. Durante o dia, Selina Kyle, durante a noite Mulher-Gato. Monotonia e violência. Em extremos. A narrativa desenvolve-se por fragmentos e elipses temporais, imprimindo características da Nouvelle Vague francesa, como o close nas bocas falando, e dos filmes de Quentin Tarantino e seu “Kill Bill”. Entre amiga cúmplice, toques, simbolismos filosóficos e jogos psicológicos. Aqui, o suspense é ditado pelo tempo-escolha da mente da protagonista. E a cada noite, uma técnica, um modo e uma gradação de intensidade.

O longa-metragem mantém até o final a aura não moralista. De não romantizar e/ou sentimentalizar as justificativas da personagem principal Nada (que em árabe, língua falada na Tunísia, também quer dizer “Clube”). Ponto positivo. Até porque nenhum assassino após uma sequência de mortes recebe o insight conservador da culpa. Em uma fotografia em preto-e-branco, “Black Medusa” quer retirar a distração da preocupação do tempo, fazendo com que seja atemporal e deslocado. O processo dela não é convencional. Ainda que motivada, ao acordar, com a necessidade de “banir vidas”, protegendo todos aos moldes de um “Minority Report”, de Steven Spielberg, Nada não é afoito, tampouco tem urgência. Ouve as histórias de seus “escolhidos” (mesmo com o problema de mudez-audição), concorda com eles, desempenha o papel esperado de confidente e se comporta como um ser comum e frágil. O espectador pode encontrar semelhanças com o curta-metragem “Para Minha Gata Mieze”, de Wesley Gondim, exibido em 2018 no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Nada cria assim em sua cabeça uma sentença. Um “sinal verde”. Um estereótipo generalizado.

Como já foi dito, “Black Medusa”, que no título original traduzido literalmente significa “O que se chama estar nu”, é um grito revolucionário. De que só com radicalidade serial killer haverá a liberdade das mulheres não serem mais objetos sexuais (“serventes” aos homens). Uma “limpeza” de uma “raça” que impede seres femininos de exercer suas plenitudes existencial e de não mais se preocupar se serão abusadas. De um jeito ou de outro. Apenas por terem “ouro mágico” entre as pernas. O filme também pode ser um pedido de desculpas de dois homens diretores que apoiam o poder total dessas Amazonas em ascensão.

Trailer

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