Benjamim Zambraia e o Autopanóptico

Contra a interpretação?

Por Vitor Velloso

Festival Ecrã e Festival Cavideo 24 anos

“Benjamim Zambraia e o Autopanóptico” de Felipe Cataldo procura uma transa com a produção cinematográfica brasileira dos anos 60-80. Persegue esse imaginário do pêndulo terceiro mundista que cria rupturas e digressões na mise-en-scène para irromper do real com um discurso que parece atravessar a própria abordagem dramática. O problema aqui é que esse tesão com Jairo, Sganzerla, Glauber, Navarro, Trevisan e outros, se torna uma constante reprodução formal que não encontra uma consciência estética. 

Quando o barato é fumar fita, se enrolar na película, agredir a sanidade, proferir símbolos perante à paisagem, (de)sincronizar as falas e lançar ruídos, pode até ser divertido nos primeiros minutos, mas se torna uma repetição constante das produções marginais brasileiras. Pouca coisa se torna funcional nesse ciclo de reverências. Uma sequência ou outra pode até dar pé, difícil é se manter interessado nesse transe reprodutivo por setenta minutos. Um olhar crítico para a presente situação do cinema marginal brasileiro, engolido por uma estética homogeneizada, em contraste com as produções de outrora, poderia ser mais efetivo. “Benjamim Zambraia e o Autopanóptico” se mantém tão fiel ao delírio temporal, que se esforça no próprio desgaste da projeção, sendo mais um exercício acadêmico reprodutor que uma revisão crítica. 

Por essa razão, mesmo quando algumas ideias aparecem na tela, como a implosão criativa ou a própria decadência moral do autor, nada entra como elemento novo no debate, pelo contrário, o deslocamento é realizado para traduzir a mesma ideia, com o mesmo formato, sem nenhum tipo de renovação. Caso fosse feito há 50 anos, poderíamos discutir sua sagacidade em compreender o momento histórico, hoje, é só um delírio saudosista. E o saudosismo é um dos objetos de troca para a manutenção da classe dominante. Mas claro, há algum valor no que Cataldo pretende, pois é exatamente a partir de sua reprodução desmedida que a discussão de nossa história cinematográfica toma contornos fantasmagóricos. O cinema brasileiro, em todos os setores, se faz órfão dos modernistas, tentam revitalizar uma estética de meio século ou debatem ostensivamente com as referências equivocadas para situações ainda mais escabrosas. E isso vale para boa parte da crítica cinematográfica, que quando cita os brasileiros, partem de um figurino francês tacanho que apenas se alinha aos interesses dos países dominantes. 

Tudo isso é de uma sem vergonhice generalizada. E pelo menos, “Benjamin Zambraia e o Autopanóptico” não cede à moralização social ou ao julgamento de valor vulgar e cosmético. Se o negócio é “fumar pedra em New York” ou fumar fita pra ver se algo vem à luz, que assim seja. Glauber matou Sebastião. Sganzerla amaldiçoou Deus em nome do Brasil. Navarro escangalhou o “Rei do Cagaço”. E Cataldo quis essa inspiração, mas acabou morrendo de véspera e sendo carregado por parte dessa história pelas escadarias etílicas que taxam sua mijada. 

O exercício é menos divertido que parece e cai em limbo um tanto tedioso, perseguindo alguns fragmentos estéticos que o Brasil abortou, ainda que compreenda parte da degradação que isso representa. Ao menos, é honesto por assumir-se autor fantasma, fruto de uma câmera em chamas que paira no quadro e agride o símbolo do entretenimento, uma pipoca. Algumas camadas essenciais na compreensão da cultura nacional foram esquecidas com o passar dos anos, engolidas pela representação midiática. Entre elas, o caráter da dependência latino-americano, o caráter místico da fome e sua representação e a mandioca.

Oswald ordenou que caminhássemos para o sol, Glauber levou os trópicos a Brasília, Sganzerla criou um abismo para o mito solar. E  “Benjamin Zambraia e o Autopanóptico” não parece tão disposto à discussão, nem a síntese material de nossa forma. Mas como um breve objeto de interesse, é mais interessante que nosso descarte frequente nas janelas de distribuição nacional.

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