Belos Sonhos

Memórias de um luto, antes tarde do que nunca

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2016

Belos Sonhos

O realizador italiano Marco Bellocchio sempre preferiu construir suas obras por sonhos reais, para assim acessar a metafísica dos neurotransmissores emocionais. Mas não a que Federico Fellini contava, como projeções vívidas do inconsciente, e, sim, personificando a própria ficção que o Neo-Realismo italiano sempre jurou dizer que soava como um intimista e coloquial retrato documental da vida presente. O olhar de Bellocchio busca essa percepção acordada, entre o estágio do sonho (animado demais), a realidade sonhada e o meio termo que conecta imaginação e verdade. Sua narrativa quer esse devaneio encantado e lúcido, sentido entre a utopia consciente e o limite tênue do dormido e do acordado. É inclusive nessa fase a sensação de se controlar o rumo do sonho, palavra esta que sinonimamente conflui anseio, expectativa, ambição, desígnio, tensão e destino. Talvez essa palavra seja a que mais representa o tudo do querer do ser humano. João Paulo Cuenca, em seu livro “Qualquer Lugar Menos Agora”, consegue ser cirúrgico ao escrever que “O tempo congela na fronteira entre o que é e o que deixou de ser”. 

Pois é, sonhos sempre foram um dos grandes mistérios do mundo, que até Freud gastou quase toda sua vida tentando decifrá-los. É como se nosso corpo quisesse nos mostrar uma mensagem.  Uma premonição. Uma ajuda prévia. Um aviso. Quase como uma parábola visual e confusa à moda do Mestre dos Magos em “Caverna do Dragão” e ou do Mestre Yoda em “Star Wars”. Talvez Marco Bellocchio queira saber antes o que o aguarda, e para isso cria em “Belos Sonhos”, exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2016, sua própria atmosfera, de Rainer Werner Fassbinder, em “Querelle”, por exemplo, ou de Wim Wenders em “Asas do Desejo”. Sim, mas como foi dito, tudo aqui visa a realidade, a verdadeira protagonista, em elipses, em tempos intercalados e em traduções filosóficas, entre perspicácias, histerias, euforias, desânimos, danças, catarses, jogos de futebol, angústias, silêncios, culpas religiosas (a Igreja como condutora de uma fé moral e não questionada) e pensamentos libertadores. 

“Belos Sonhos”, baseado no romance homônimo autobiográfico “Fai Bei Sogni”, de Massimo Gramellini, deseja transpassar a memória, episódica, de procedimento, declarativa e, por consequência, assim como os sonhos, não totalmente confiável – porque é inerente que tendemos a “escolher” os melhores momentos e “desvirtuar” os fatos ouvidos ou experimentados. Marco Bellocchio também não pode fugir da memória política da Ditadura, esta que movimentou a estrutura familiar, especialmente no desentendimento das crianças, gritos e portas se abrindo e fechando. “Belos Sonhos” atravessa o passado e as consequências no presente, na mesma casa, em Torino, Itália, cuja mise-en-scène também se faz pela fotografia, de luz apagada, com tons pastéis, de sépia amadeirada, complementada pela fluidez da câmera livre que acompanha as corridas da criança, os fogos de artifício do fim de ano, as viagens de ônibus, as danças com sua mãe e as frestas confrontadas ao encontrar o pai, e suas reações adultas e infantis, ao mesmo tempo, às descobertas do “voo eterno ao paraíso” da mãe, por exemplo. 

Bellocchio cria uma fábula naturalista e sensorial de emoções, bem à moda de um Ingmar Bergman (contudo não sendo tão “Persona” assim), mas protegendo o espectador com a percepção da interpretação percebida, mais ao realismo teatral, que encontram instantes por detalhes coloquiais lembrados e por expressões indicativas, como os olhos do pequeno ao conhecer a tristeza e a perda, e as formalidades da mórbida tradição de forçar não sentir o luto com a normalidade da vida. A solução talvez seja evocar os filmes e pedir ajuda a suas personagens. Belfagor (seriado francês de 1927 dirigido por Henri Desfontaines), cadê você? “”Se” é a marca do fracassado, você deverá falar apesar de”, diz-se. “Belos Sonhos” evoca as fases da infância, adolescência, adulta e a da maturidade, em que o “se” não existe mais, porque não há mais respostas a buscar. Este é um filme de luto. De substituir “fantasmas”. De se permitir sair da zona de guerra. Em Sarajevo, 1993 e a manipulação da foto que mais representa a desgraça. Massimo (interpretado por Valerio Mastandrea) é um jornalista. Ele protege-se na invisibilidade, mas as “tramas do destino”, que muitos chamam de coincidência, o levam a experimentar a melhor terapia cognitiva e assim se libertar do vazio não acessado, muito provavelmente pelo medo de sofrer. Ou de não saber lidar. E que agora, sufoca, causa pânico.

Antes do filme começar na sessão de gala em Cannes, o diretor Marco Bellocchio disse que “esperava que as pessoas gostassem do filme que se conectassem de alguma forma”. Pois é, não sentir nada é quase impossível. Ao reler minhas anotações escritas durante a primeira exibição, depois de um tempo, encontrei diferentes significados dos da época. Lá, eu tinha achado “Belos Sonhos”, ora um filme de terror antigo, ora um filme noir. De flash estendidos. Que a dança do passado representava felicidade. Que a do agora, diversão e de arte conceitual. Não datada, mas nostálgica. Time after time. Que a câmera era espontânea demais. Que a mãe vivia uma bipolaridade emocional por ser uma turista de si mesma. Que há aqui uma comparação do projetar a perda: um quer esquecer a mãe por causa dos Rolling Stones, o outro nunca terá essa opção. “Belos Sonhos” é sobre o acordar. Recomeçar a sentir. Porque precisamos “superar” a vida.  

4 Nota do Crítico 5 1

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