Belair

O resgate de uma época pela transgressão documental de Noa e Bruno

Por Fabricio Duque

“Belair” inicia-se com um barco que navega pelo mar. A câmera estática, e sem cortes, busca os raios de sol que em certos momentos cegam a imagem, adquirindo uma nostalgia que tenta captar variadas cores, que se formam, junto ao barulho da onda no casco. A cena hipnótica de abertura dura quase cinco minutos e é extremamente necessária e excelentemente construída a fim de introduzir o espectador no universo temático do filme.

Os diretores Noa Bressane (filha de Júlio Bressane”) e Bruno Safadi (de “Meu Nome é Dindi”) trazem a tona a história da trajetória da produtora Belair, criada por Júlio Bressane, Rogério Sganzerla e Helena Ignez, entre fevereiro e maio de 1970, realizando sete filmes de longa metragem: “A Família do Barulho”, “Carnaval na Lama”, “Copacabana Mon Amour”, “Barão Olavo, o Horrível”, “Cuidado, Madame”, “Sem Essa, Aranha” e “A Miss e o Dinossauro”, sendo 3 de Rogério, 3 de Bressane, e 1 curta dos dois (com co-direção de Helena Ignez, a fera oxigenada).

O objetivo é o resgate emocional de um período em que o cinema brasileiro vivia uma erupção a 24 quadros por segundo. Belair é uma historia desse cinema. Interditados pela censura da época, estes filmes de ficção são uma desconhecida e reveladora máscara-espelho daquele período sombrio. Uma escavação ótica traz estes fotogramas clandestinos a luz. A montagem projeta o esforço experimental destes cineastas em tornar o invisível visível. Desde a abertura do documentário, o espectador é envolvido ao experimental. Um homem, projecionista, aparece do desfoque ao quase nítido, com um rolo de filme na mão.

A câmera focaliza detalhes de montagem e narrações dos três protagonistas complementam a trama. Ouvimos sobre o cinema experimental, manipulando um ruído de um filme a outra imagem, desconstruindo a própria ordem da edição e tornando-se transgressora. Há inúmeras imagens de arquivos. A primeira aparição é a do filme “O Anjo Nasceu”, de Bressane, em 1969, apresentado no Festival de Brasília do mesmo ano. “A mulher de todos”, do Rogério vem a seguida. Podemos apreciar e nos deliciarmos com os discursos políticos e utópicos, influenciados principalmente pelo “Manifesto Antropofágico”, de Oswald de Andrade. De novo, a câmera é personagem e público, às vezes ao mesmo tempo. “Uma forma de esconder a verdade. Você faz pra tentar saber o que é. O que leva alguém a fazer alguma coisa é inexplicável”, diz-se.

O significado da escolha do nome “Belair” vem do nome do carro e do Bairro. “Amizade é a matéria prima de qualquer cinema (de envergadura)”, diz-se. “Helena (Ignez) radicalizou. Não somente em “A Mulher de Todos””, complementa-se. É uma aula de época, de como o cinema se comportava. “Tudo podia servir como imagem”, outra frase que demonstra a riqueza deste longa-metragem. Os diretores optaram por utilizar as imagens desprezadas a fim de montar um filme único e deles.

“É através da feitura que se aprende”, diz-se, diz-se, diz-se. Definitivamente é o elemento mais incrível. “Nos anos 70, precisávamos ir a outros países para conservar a própria arte”, relembra-se mostrando a atriz Maria Gladys, ícone do cinema nacional. Helena Ignez diz sobre a construção de seus personagens: “Trabalho personagens de forma autoral, de mim mesma, às vezes desarranjo total do movimento”.

Quanto a outras ideias, “Esse cinema fez revolução interna, poderosa”, diz-se em tom transgressor, melancólico, de saudade utópica e ingênua. É um filme metalinguagem ao extremo. Usa os elementos cinematográficos para explicar o cinema, visualmente e ou verbalmente. “Imagem anormal e patológica. Isso faz arte. Trabalhávamos com tudo contra, da forma mais obscura. Era o charme e a beleza da época. Planos sequências experimentais. Nova linguagem fluente de seguir os atores”, ensina-se. Um teatro epifânico. A ditadura terminou com a Belair. Eles foram a França, resgatando alguns, como “Cuidado Madame”, que nunca foi exibido comercialmente. “Aonde vamos parar? Eles vão entender as minhas loucuras”, finaliza-se.

Concluindo, um filme necessário, inteligente, que conserva a transgressão estética da imagem, levando o espectador a embarcar no mundo datado de uma época confusa e criativa. Recomendo. Melhor Documentário do Cine Fest Goiânia. Com Orçamento estimado de R$ 600.000,00.

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