Avesso Festa Baile

Alinhamento orgânico do caos televisivo

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra CineOP 2020

Como parte da Mostra Histórica da Mostra CineOP 2020, “Avesso Festa Baile” de Tadeu Jungle, classificado como experimental, inicia a programação, logo após a abertura e o debate inaugural, foi exibido virtualmente. Média metragem censurado em 1983, que fazia parte da TVDO, Avesso. Trazendo parte da linguagem e da cultura televisiva do momento, o filme é um recorte, fragmentado, da Festa Baile, com uma perspectiva absolutamente embebida do período moderno do cinema.

O próprio debate, levado na inauguração, do cinema x TV e a aversão do primeiro pelo segundo, fica explícito no experimento de Jungle, enquanto uma reforma provisória, mas contundente, de um formato clássico do fazer cinema e TV, enquanto unidade audiovisual. Uma experimentação não apenas da linguagem, mas da estrutura do programa. O nome “Avesso” não é à toa, tudo decorre em torno de um formato à la “Abertura” com Glauber e uma espécie de precariedade de entrevistas baratas, tacanhas, que vão buscar a estética naquilo que há de mais brega em toda a concepção dada ali como fundamento único do programa.

Assim, Jungle consegue em “Avesso Festa Baile” uma virtualidade, não intencional, nos tempos atuais, pois assistimos à um programa, média, que foi censurado, em nossas casas. O pragmatismo do caos organizado pela linguagem, se torna a matéria-prima dessa concepção que não busca paradigmas em sua realização, apenas uma diretriz de puro alinhamento orgânico, explicações que antecipam a lógica e desafiam a metafísica. Aqui, com perdão, faço uma analogia paródica do que Sant diz em “Ponto de Força”.

Essa questão metafísica que podemos debater em torno desse modernismo tardio, de uma estrutura explicitamente herdade de um concretismo mas de uma cultura de massa logicamente caótica no paradoxo da organicidade, transforma a experiência em um referencial absolutamente deturpado. O conceito de originalidade pode vir a ser debatido aqui, mas sem dúvida a ousadia de interromper a fala de uma entrevistada, para perguntar qual a origem do colar dela, cria uma angústia dentro do ritmo.

É materialista no que tange a origem de suas verve formais, mas absolutamente anárquico em perspectiva Histórica, não apenas observado nos tempos atuais. E essa desmaterialização do contexto, faz com que o limite do cafona e do retrato bestializante desse precário, recaia sobre a “moda”, aqui compreendida tanto na TV, uma das perguntas feitas durante “Avesso Festa Baile”, como da vestimenta em si, que leva à um dos planos mais cômicos do projeto, a gravata de um dos entrevistados.

Tentar discorrer sobre o média, pode parecer um exercício menos honesto que parece, pois é tudo tão diretamente explícito e exposto ao literal, que qualquer acréscimo fica por conta das palavras, e frases (até poemas), que surgem na tela, se contrapondo à imagem daquele baile, tão atípico e culturalmente brazileiro. Sempre com Z, pois claramente há uma deturpação de uma ética de costume, uma espécie de dogma padronizado, importado explicitamente, que “Avesso Festa Baile” provoca até dizer chega. Onde não há o que avacalhar. Cria-se.

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