Avenida Brasília Formosa

Aqui em baixo

Por Vitor Velloso

A filmografia brasileira contemporânea vêm se confundindo, formalmente, entre o documentário e a ficção. Movimento estético esse que vem crescendo a décadas no Brasil. Hirszman possui um trabalho expressivo nesse sentido, já que ampliou alguns limites dessa tênue linha. “Avenida Brasília Formosa” é um projeto inicialmente curioso por se tratar de uma abordagem quase inversa da proposição comum, já que transforma o objeto documental em verve ficcional, fazendo-se dúbio em natureza, tempo e espaço. A escolha é ousada se pensarmos através da literalidade do real, da verticalização do mundo.

Acaba transformando o projeto em uma consideração quase formalista das coisas, um grau de exposição sem interferência que faz o pensamento lembrar Uchôa, o que não torna o longa exatamente sólido. Não que as intenções aqui não sejam particularmente potentes, já que o retrato social, quase de oposição ao projeto anterior, destaca a vivacidade do terreno, a cultura como um elemento norteador de cada uma daquelas pessoas. O concreto aqui não é mais o indivíduo, o lugar, a espacialização vertical que se compreende como um destaque. Em “Avenida Brasília Formosa” há, uma formalização do espaço enquanto ambiente de trabalho, como tensão para questões dramáticas daquelas pessoas, de uma realidade que existe, mas não se faz tão presente pela lente.

E essa verve que mistura o real e a ficção, transforma o material em algo que perde potência com o tempo, seja pelo ritmo ou pela necessidade de estetizar determinadas situações. Gabriel Mascaro busca uma poética livre através da câmera, fora do engessamento de “Um Lugar ao Sol”, alcança por vezes esse almejo, mas desliza ao não se permitir escutar o discurso para além do cotidiano. É quase uma banalização da vida, o que de fato, partindo de uma proposição política, é interessante de se debater através do cinema, além de estruturar narrativamente uma lógica dramática em torno daquelas pessoas. Mas não seria uma necessidade quase voyeur de se presenciar uma realidade?

A pergunta soa ingênua, talvez arrogante, mas ela parte de um pensamento estritamente sociopolítico. Organizar a ordem das filmagens como uma narrativa que se concebe como ficção, parece negligenciar a dialética presente em afrontar a própria mise-èn-scene. Permitir que haja um rompimento de determinadas amarras, perde um pouco o controle, por vezes, pode ser um processo político mais sólido, ou consolidado. A concessão morfológica fica por conta da dúvida.

“Avenida Brasília Formosa” não quer dar respostas, nem expor uma parte da sociedade, mas sim as pessoas que a compõe. E essa intencionalidade, casa muito bem com o exercício de dispôr o quadro a eles. Quando se leva ao relento, consegue uma encarnação densa de uma lógica que determina à Antropologia um lugar de silêncio. O ato de reclamar acerca da misoginia do pescador, reflete uma escala social bastante peculiar. Pensar por eles não é um caminho interessante. Mascaro é hábil em jamais julgar ou discutir, pois problematizar qualquer ponto que há naquelas vidas, é negligenciar suas necessidades enquanto imediatismo social. Longe do diretor concordar com tudo, mas quem é ele para apontar o dedo e dizer “Está errado”?

De forma pragmática, é muito fácil do teclado da casa escrever sobre a realidade de “Avenida Brasília Formosa”, falar da perspicácia de outrora, ao encurtar os limites do documentário e da ficção, abordar a TV e a mídia como um ópio social que drena a energia das pessoas. Etc. Difícil é se compreender uma vida sem o conforto do ócio reflexivo. É uma das coisas que “Até o Fim” de Ary Rosa e Glenda Nicácio, expõe tão bem.

Enquanto “Um Lugar ao Sol” é uma exposição da brutalidade social, que segrega e fetichiza seu entorno, “Avenida Brasília Formosa” é um destaque do Brasil, de frente para a câmera, sem ousar lembrar “dos outros”, sua menção é feita através de almejos sociais, como a flexibilização do pensamento perante a sociedade do capital. E Mascaro não precisa dizer isso, para que haja clareza no mesmo.

O sonho do brasileiro médio é alcançar a mediocridade de ser apolítico enquanto brada por urgência nas resoluções de Estado e da vida social daqueles que são classificados como “baixos”. É o ócio constante, que os leva a falar de questões externas às suas “conquistas”. Mas a vida embaixo não para, exige o tempo e a estrutura que tanto assiste pelas quadradas na sala.

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