Atravessa a vida

A corrosão da dependência

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Gramado de 2020

O trópico é quente. O capitalismo falhou, é dependente. O subdesenvolvimento corrói as entranhas da América-Latina. E os artigos vão se somando. 

“Atravessa a Vida” de João Jardim, é um poderoso documento da relação pública da Educação, política e dos falhos anos em desenvolver um país que consiga dar cabo às resoluções de sua Constituição. A diretora da escola possui tarefas múltiplas e a dependência direta dos Exames públicos reforça que a meritocracia é a farsa dada pela classe dominante. O ego e suas capacidades são tão frágeis, que é necessário corroer a sociedade em suas bases, para que essa manutenção do poder seja feita. A ira da burguesia é ver o pobre dividindo sala com seus filhos. “Que horas ela volta” trata brevemente disso.

As dificuldades no campo da Educação são imensas. Com o Estado abraçando sua decadência moral e capital, o ensino público sofre com a falta de estrutura, falta de professores, uma imposição no calendário que apenas torna a tarefa do Exame, árdua para quem realmente necessita do apoio do Estado. E a importância de um documentário como “Atravessa a Vida” está em múltiplas camadas. Primeiramente para nos lembrar que o atual Ministério da Educação, ocupado em sequência por infelizes moralistas, reacionários e conspiracionistas, não se pronunciou sobre o Fundeb. Tarefa direcionada de forma imediata à sua pasta. Mas a negligência com a situação do país é tamanha, Salles reforça: Vamos passar a boiada. Outro almeja vender tudo que vê pela frente. A ruína está dada. 

O filme de João Jardim compreende todo o cenário e o contexto político, ainda que precedendo o atual momento, pois recorrer a bases econômicas e geográficas a fim de suscitar o debate em torno do dilema de dependência latino-americana. No processo, há alguns planos que buscam retratar parte do espaço da cidade, contextualizando ao espectador. Nesse ínterim, há algumas sobras, planos que nada acrescentam. E como dizia Pound ensina, o inútil não só não acrescenta como prejudica. 

Mas cabe a ressalva. João se interessa pela educação, pela compreensão da desigualdade no Brasil, pelo lado honesto da História. Assim, sua abordagem nos traz o serviço mais que necessário à discussão da máxima importância para o nosso país. 

Como dito anteriormente, “Atravessa a vida” abarca questões mais diversas que apenas esse campo. O longa vai atrás das nuances emocionais de seus alunos, o processo de transformação do Médio ao Superior. As entrevistas vão somando o mosaico da desgraça subdesenvolvida que fomos acometidos. Os depoimento duríssimos põe o emocional do humano em cheque. A ausência dos pais, o excesso de informação, o mundo virtual, o abandono emocional e físico de parte dos alunos. Relações não vistas na mesma intensidade, ao menos em contextos absolutamente distintos, do universo burguês. Assim, o documentário consegue consagrar uma visão materialista da realidade brasileira, pois põe em cheque o Estado e o capital, não necessariamente as instituições. Dessa maneira, não exclui os discursos contundentes de um conservadorismo, da fé, do debate acerca de medidas públicas etc. Há espaço para essa verve que inócua, ou não, reforça as particularidades de uma sociedade que se vê à margem do sistema. 

No momento que “Atravessa a vida” dá continuidade ao período pós ensino médio, ele cria o respeito pela consagração conseguida por alguns alunos, mas faz questão de ressaltar as dificuldades de outros. Demonstrando que as arestas da sociedade capitalista são, em última instância, o projeto de secção da classe dominante, que detém o poder em última escala, como relata Marx em citação de memória: A constituição é escrita pela classe dominante e sua manutenção é feita em mesma escala. É desta maneira que a escola Centro de Excelência Doutor Milton Dortas vira uma referência no debate acerca do subdesenvolvimento, do terceyro mundo e da dependência do capitalismo. A sociedade brasileira é culpada pelas disparidades no acesso à Educação e na qualidade da mesma. 

Por fim, a obra é uma chave de suma importância para a crítica do sistema vigente, não apenas uma exposição que mira o altar das premiações, mas consegue conceber de forma concreta a realidade que nos cerca. Cabe a todos a mudança imediata, pois as vias democráticas mostraram a falácia do discurso, não importa a direção. Mas é claro, tenhamos fé no Pastor, que o rebanho está a solta. 

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