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Atordoado, Eu Permaneço Atento

Construção em ritmo de cotidiano

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Gramado 2020

A conjuntura política atual destrói a esperança. O sentimento nunca esteve exatamente presente na história da América Latina. O subdesenvolvimento corrói e pau-brasil consome. Quando o atual ocupante da cadeira no planalto enalteceu as práticas de tortura de um dos homens mais violentos que esta pátria desgraçada concebeu, o Brasil compreendeu seu encaminhamento, recolheu seus votos, direcionou à morte. “Atordoado, Eu Permaneço Atento” de Lucas H. Rossi e Henrique Amud entrevista Dermi Azevedo, jornalista, vítima da ditadura. Seu filho, com um ano e oito meses levou um soco de um militar, perdeu parte dos dentes. Mas afinal, onde reside o louvor pela ditadura? Pela tortura? Pela morte? 

O ódio não basta. É mais que isso. Existe uma estrutura que violenta a História, a verdade, deturpa os escritos (no caso das instituições religiosas) e conjuga tudo em uma narrativa tacanha, o que difere da pura e simples falsidade. Em entrevista recente ao Estúdio Fluxo, com frente de Torturra, Ricardo Gondim, pastor, relata como as práticas religiosas são ferramentas de manipulação do discurso, da massa trabalhadora, uma máquina de lavagem de dinheiro assombrosa. E aqui cabe ressaltar a pavorosa decisão de determinados partidos em optarem pela anistia das dívidas. 

Essa união da prática da fé com essa ideologia genocida, torturadora, é algo propriamente de uma moral anterior ao Brasil contemporâneo, um moralismo que, importado, propiciou o golpe de 64, tendo como bode expiatório os comunistas, em sequências os homossexuais, as mulheres, os negros, e agora, quase seis décadas depois, retorna as comunistas, agora, com todo o discurso de “segregação” da sociedade. “Não há racismo no Brasil”. “Não há fome no Brasil”. “Vamos quebrar essa placa”. Ora, se a História e os fatos são tão importantes para a ideologia, destruir os pilares desse processo são crimes contra a humanidade, são violências à sustentação dos fatos. Tivemos que explicar novamente que a terra é redonda. E ainda há o autodenominado professor e filósofo, guru, de meio cérebro funcional, que vai utilizar de espantalho e pensamento metonímico, crítica constante de suas falas, para argumentar a favor dos conspiracionistas, aliás, ele mesmo é um. 

E é neste cenário que “Atordoado, Eu Permaneço Atento” concentra seus esforços, através da dialética e das falas de Dermi Azevedo, conceber a união da História entre o período da ditadura e o discurso contemporâneo do protofascista e seu rebanho descerebrado. As imagens de arquivo dão conta de reestruturar a organização do tempo em meio à imagem, ao passo que a oratória do protagonista, enriquece o paralelismo espaço-temporal. O discurso sofrido que salta da tela é a imagem destruída de parte dos arquivos. Corroída a História se vê parcial, pela metade, frágil, mas jamais esquecida por aqueles que viveram a opressão. O ritmo cadenciado da obra, dá conta da sutileza de seus entraves históricos, dos fatos, não factoides, da imagem da tortura e na silhueta do cansaço, a dor de quem perdeu seu filho para a ditadura, mesmo que tantos anos depois.

Afinal, levar um soco de um militar no início da vida, um ano e oito meses, marca a vida de qualquer ser humano. 

Há um mês, o atual governo completou a mesma idade da criança agredida, mas quem vai sofrer com o tempo é o Brasil. 


O título do filme “Atordoado, Eu Permaneço Atento” é um trecho da música “Cálice“, de Chico Buarque. 

Trailer

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