Até logo, meu filho

Enquanto o céu e a terra durarem

Por João Lanari Bo

Festival de Berlim 2019

Nascido em 1966 em Xangai e criado em Guiyang, capital da província de Guizhou no sudoeste da China, Wang Xiaoshuai – o realizador de “Até logo, meu filho” – foi e continua sendo testemunha ocular de um radical processo histórico: a emergência da China moderna, pós-revolução cultural de Mao Tse-Tung, fruto das reformas econômicas capitaneadas por Deng Xiaoping. Sua vida foi pautada por essas turbulências: penúria e retraimento nos tempos maoístas, opulência e desigualdade crescente no refluxo da maré socialista. O modelo chinês combinou autoritarismo de partido único com abertura para o capital estrangeiro, sobretudo da diáspora chinesa, gerando uma espécie de capitalismo de estado mais ou menos predatório, com forte presença de empresas estatais e infinitas oportunidades para os antenados. Mao faleceu em 1976: a ação do filme começa justamente no vácuo transitório que se instalou com sua morte. O casal Liu Yaojun (Wang Jingchun) e Wang Liyun (Yong Mei), núcleo da narrativa, inicia aí o percurso de dramas e perdas, culpas e reconciliações – configurando o “arco moral que vai se curvar em direção à compaixão”, para utilizar um chavão descritivo dos manuais de roteiro cinematográfico. Ambos, ator e atriz, com atuações notáveis, foram vencedores do Urso de Prata em Berlim 2019.

Arco moral? Sim, pois o intervalo de tempo em que se passa a história, três décadas, nos permite um vislumbre das mudanças tectônicas na sociedade chinesa e seus impactos no nível ordinário da existência. Mudanças como as provocadas pela duríssima política do filho único – implementada entre outros por Deng Xiaoping em fins dos anos 70, descontinuada em 2016 – e que ocupa lugar central na vida do casal. Mudanças, enfim, que correm o risco de permanecerem invisíveis pela escala massiva: afinal estamos falando da China, nação de dimensões humanas e físicas que desafiam a combalida razão cartesiana. Qualquer tentativa de interpretação estética num cenário hiperbolicamente complexo como esse é uma aposta dificílima. Mas Xiaoshuai foi ousado: “Até logo, meu filho” se propõe a resgatar o tempo histórico pela suspensão da linearidade cronológica da narração, recuperando fragmentos desses 30 anos de impasses políticos, traições amorosas e afetos partidos: e contar a história da perda de um filho, da substituição desse filho, do entorno próximo, do entrecruzamento das linhas de dor, arrependimento e remorso – em uma palavra, se propõe a contar um melodrama.

Tudo começa em Pequim, numa fábrica estatal, onde Yaojun e Liyun são operários. As reformas econômicas de Deng batem fundo: o casal perde o emprego, e migra para o sul, na ensolarada província de Fujian, à beira-mar. Melodrama: expressão histórica das negociações afetivo-emocionais da classe média, incluindo traumas, sexualidade e respectivas sublimações. A definição é sumária, mas útil para situar “Até logo, meu filho”, que naturalmente procura corresponder aos anseios da audiência. As sutis passagens temporais entre as sequências, que denotam épocas distintas para os personagens, integram-se no raccord histórico-conceitual que orienta o projeto, em função da excelência dos enquadramentos e direção de atores – Wang Xiaoshuai revelou que escreveu inicialmente “em ordem cronológica, mas então percebi que teria sido muito difícil fazer o filme assim por causa das mudanças pelas quais a China estava passando”. O único marco temporal mencionado é 1986, quando o casal perde o emprego. As ruas não são as mesmas, prédios foram derrubados, a transformação urbana nesses 30 anos é vertiginosa, comenta Liyun ao voltar a Pequim. “O tempo existe”, disse certa vez Deng Xiaoping: em outra de suas célebres instruções, asseverou; “deixe algumas pessoas ficarem ricas primeiro”. Nessas poucas palavras uma quantidade colossal de energia foi liberada – e a China caminha para ser a maior economia do planeta, quer queiram ou não desavisados e ignaros, inclusive por aqui, no Brasil.

Até logo, meu filho” pode ser lido, também, como uma etapa da inserção global da China moderna. Vivemos em uma época em que, para muitos, um produto made in China confunde-se com a própria noção de consumo. A espetacular ascensão econômica e social chinesa nas últimas décadas fascina e inquieta – é o tigre que se levanta e que volta a ocupar o centro do mundo. Mas, o que sabemos desse gigante que se anuncia no horizonte? Remova os clichês, focalize objetivamente – sabemos muito pouco. Os cineastas da chamada 6ª geração, onde se inclui Xiaoshuai, trazem à tona uma intrincada teia de transformações, tecida em um ambiente autoritário quase infenso aos valores que o Ocidente supostamente defende. Um trabalho de importância ímpar e necessário, portanto.

O título do filme em chinês pode ser traduzido como “enquanto o céu e a terra durarem”, e foi extraído da versão local de uma tradicional cantiga escocesa, “Auld Lang Syne“: de acordo com o diretor, a letra “fala principalmente sobre amizade, então não há um único elemento político nisso. Acho que essa é a razão pela qual ela sobreviveu a tantas épocas diferentes da história moderna da China e se tornou tão popular. Ainda me lembro de meus pais e das gerações mais velhas cantando essa música.” Cantada no filme, é um signo de reconciliação. No Brasil, a canção recebeu em 1941 versos de Braguinha, nosso João de Barro, e ficou conhecida como a “Valsa da Despedida” – segue o refrão: “Adeus amor/Eu vou partir/Ouço ao longe um clarim/Mas onde eu for irei sentir/Os teus passos junto a mim”. O poema original foi escrito por Robert Burns, em 1788. Foi adaptada para uma tradicional melodia popular, bem conhecida em países de língua inglesa, muitas vezes cantada para comemorar o início do ano novo.

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