Ataque dos Cães

Onde está Bronco Henry?

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2021

Ataque dos Cães

Ataque dos cães”, o longa de Jane Campion que estreou no tapete vermelho do streaming, é um “faroeste gótico”, como definiu um crítico: a expressão é oportunista e rasteira, mas serve para situar a incursão da talentosa diretora neozelandesa no gênero dos gêneros, o insuperável faroeste. Desde seu início, o cinema norte-americano explorou com volúpia esse espaço mítico, vasto território de conquista, caracterizado por planícies e montanhas à espera do homem branco colonizador, habitado por alteridades desconhecidas, mas codificáveis – os índios – e envelopado na linguagem ficcional que o público pedia e os cineastas entregavam. Baseado no livro de Thomas Savage, publicado em 1967, a história se passa numa época pouco usual: começo do século 20, precisamente em 1925. Embora a maioria dos faroestes tradicionais ocorra durante a segunda metade do século 19, quando as fronteiras americanas ainda registravam zonas de instabilidade – oficialmente o território dos EUA se consolidou por volta de 1890 – a sensação que emana do filme é de imersão num mundo de linhas de fuga ainda infinito, permeado de microclimas sensuais e refrescantes, lagos e sombras. O local é Montana, estado que faz divisa com o Canadá, vazio, com baixíssima densidade populacional, dominado pelas Grandes Planícies e cercado pelas Montanhas Rochosas.

A despeito das referências geográficas, as filmagens foram realizadas … na Nova Zelândia – custos baixos sempre falam mais alto na produção. Assim como Peter, o personagem interpretado por Kodi Smit-McPhee, o futuro escritor Savage cresceu num rancho em Montana. Peter é um dos polos da narrativa: obsessivo anatomista de animais, magro e alto, (falsamente) delicado e falando com língua presa – destoa na atmosfera de cowboys durões. “Eu imagino que, de alguma forma, ele (Thomas Savage) enxergou sua própria história no Peter”, comentou Campion. Savage era gay, mas devido à intolerância da época, nunca chegou a sair do armário: casou-se com uma mulher, informa a diretora.

Estamos, enfim, numa belíssima propriedade rural, própria para criação extensiva de gado, próxima a um vilarejo que o tempo esqueceu. Um brilho âmbar ilumina boa parte das cenas, seduzindo a todos, personagens e espectadores. A beleza das imagens se choca com o odor nauseabundo de Phil (Benedict Cumberbatch), o herói/vilão da fita: “cheiro mal e gosto disso”, diz ele, desafiadoramente. Logo no início, seu irmão George (Jesse Plemons) pergunta, instalado numa banheira: “Phil, você não gostaria de experimentar essa banheira?” O silêncio é a resposta: na sequência, conhecemos o quarto em que os dois dormem, na imensa e imponente sede da propriedade – a relação entre eles, com todas as disparidades, é afetuosa. Phil chama George de fatso, gordo: eles são fazendeiros ricos e astutos. Phil é respeitado porque vê algo nas colinas que seus homens não conseguem ver, indicando sua superioridade. Sua matriz existencial, a entidade invisível que define “Ataque dos cães”, é Bronco Henry, o legendário cowboy que salvou sua vida e educou-o para a vida selvagem. Na sua intemperança, Phil massacra a viúva Rose, a dona do restaurante com quem – logo quem – George fatso resolve se casar: Rose (Kirsten Dunst), mãe de Peter. Exasperado, Phil lubrifica a sela que pertencia a Bronco, enquanto seu irmão faz sexo com Rose.

Masculinidade tóxica é um rótulo muito simples para descrever o que está agitando o interior de Phil: o termo se refere às características que a sociedade atribui ao sexo masculino de maneira estereotipada. O alcoolismo de Rose, entretanto, surge como contraponto compensatório a essa masculinidade. Num raro comentário sobre Phil, a mulher do governador de Montana, que comparece a um jantar organizado por George, afirma: “ele é brilhante, estudou letras clássicas, grego e latim”. Uma informação desconcertante – Phil, apesar de tudo, parece ser incapaz de expressar seu verdadeiro eu, a todos em sua volta, nem mesmo ao irmão. Peter, of all people, vai curto-circuitar essa rígida estrutura psíquica. “Ataque dos cães” avança lentamente, cozinhando a narrativa em fogo baixo: dividido em capítulos, começa como uma peça de época bem fotografada, mergulha em um drama psicológico e torna-se um exercício de terror. É uma construção lenta para um final poderoso, que satisfaz e confunde ao mesmo tempo. As camadas do desempenho de Cumberbatch acabam por revelar algo mais do que bravatas ruidosas: no limite, o corpo de Phil reintegra-se ao ambiente hostil e contorce-se em convulsões, apagando-se para a eternidade.

A história do filme é, resumindo, a história do corpo: um corpo estranhamente vulnerável, que atravessa a imensidão da paisagem, blindado por Bronco Henry.

Trailer

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