As Preces de Delphine

A câmera e a confissão

Por Vitor Velloso

Durante Olhar de Cinema 2021

Figurando na Mostra Outros Olhares, “As Preces de Delphine”, de Rosine Mbakam, é um filme exaustivo. Não porque o ritmo é comprometido, mas porque parte da realidade ali narrada é um soco no estômago do espectador, de forma constante. Por mais que o espectador do sul global compreenda de maneira menos estranha o que a personagem conta, não faz a coisa toda ser menos violenta.

Aqui, a ausência de material de arquivo ou preenchimentos mais expositivos, faz com que toda a experiência do documentário esteja restringida às falas de Delphine. Essa linguagem sintética faz do encontro não uma mera casualidade, aliás em muitos momentos a protagonista pede o fim da gravação (naquele dia). Assim, o espectador está sempre comprometido ao diálogo, sem capacidade de devaneios. O recurso é brutal, pois em diversas passagens tudo que vemos são histórias e sentimentos estampados em seu rosto. É uma forma de materializar a narrativa recorrendo apenas à diretriz da oralidade, a tradição de passar uma história adiante sem a interferência direta das imagens. E isso “As Preces de Delphine” sabe fazer com precisão, pois a linguagem se coloca ali, fixa, quase sempre imóvel.

Algumas passagens são verdadeiramente difíceis, toda a história presente no início da projeção, que fala de como ela é acusada pela própria família de um crime que não cometeu, é particularmente marcante, mas não o único momento em que o espectador se vê de frente com aquilo que dá nome à obra. São verdadeiras preces pela verdade, por justiça, por (auto)perdão, por paz. Os suplícios de Delphine são filmados por Mbakam como a obra em si, o que faz com que suas sentenças tomem a particularidade da forma que ela conta. Quando ela encena um gesto que fez ou a roupa que utilizou, temos dados mais visuais para imaginarmos, mas quando há apenas a tristeza e a inconformidade com coisas que lhe ocorreram, seu rosto toma a expressão de sua dor. E essa mulher negra, camaronesa, que traga seus cigarros em uma residência na Bélgica, é a anfitriã de um baú de memórias viscerais, que a diretora apenas enquadra. A decisão da cineasta não recorre a nenhum formalismo ou cerimônia teórica, parte única e exclusivamente do encontro.

“As Preces de Delphine” é uma espécie de confessionário, onde vemos reflexos do subdesenvolvimento nessa particularidade. Está claro que a história de Delphine é o que importa, mas não é possível esquecer que ali está o retrato de uma sociedade, não por acaso a identificação da cineasta com sua personagem. Ambas camaronesas, ambas imigrantes. A própria forma é a maneira de traduzir esse encontro, um diálogo direto, com poucas intervenções e com um quadro que pouco muda ao longo da projeção. Por mais que a descrição possa fazer parecer com “Amador”, a coisa acaba funcionando de maneira bastante distinta. Essa aproximação é feita em um tom diferente e a própria consciência da linguagem vai para outro caminho também. Mbakam está completamente ciente do que faz, um rigor calmo e contemplativo, que mantém um espaço de respeito e compreensão acima de tudo. Não por acaso, sua voz atravessa em poucas e breves situações, pois quase na totalidade, Delphine está falando.

A exaustão faz parte dessa experiência que não fragmenta o tempo ou o dilata, apenas permite que sua permanência seja a expressão de maneira única. Gostando ou não, é inegável que a forma assumida em “As Preces de Delphine” funciona muito bem na unidade. Quando o sentimento chegar, a projeção vai estar próxima do fim e o espectador irá continuar da mesma forma que nos minutos anteriores, ouvindo. Não existem julgamentos ou retratos, só o registro para nos apegarmos. Até mesmo uma contextualização se faz desnecessária, pois Delphine cria um retrato das heranças coloniais enquanto reforça que possui uma voz.

Trailer

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