As Órbitas da Água

Forasteiros natos e mareados

Por Fabricio Duque

Uma das magnitudes da arte do cinema é sua possibilidade de auto-transporte. Certos filmes conseguem a proeza de não só inserir o espectador à trama, mas transcendê-lo à deriva do tempo e do espaço, que se perdem e se pausam na concretude absoluta das imagens recebidas. “As Órbitas da Agua” é assim. Uma viagem que nos conduz à história por um barco metafórico e subjetivo sem destino certo e sem projeção de futuro. É uma obra de instantes, de micro-acontecimentos fluidos, libertos dentro de uma ideia limitada de liberdade e já vencidos, principalmente pela maresia que reverbera a melancolia do não mais querer e sim vencer o tédio dominante.

“As Órbitas da Agua” é um filme-ilha. Como se estivéssemos navegando em plena terra firme. É também um filme-bolha, que caminha no limite da paciência de suas personagens. Para cada um, há apenas o tempo a passar que demora demais. Assim, só resta então ir até a “borda do recheio”, “brincando com fogo” para acelerar o dia. Eles bebem, dançam, transam e traem, tudo potencializado com excitação e desejos latentes (e primitivamente orgânicos) que nunca cessam. Estão cheios de todos e deles mesmos.

Suas personagens buscam no silêncio a proteção de suas angústias, resignando-se com a condição em que se encontram e tentando não estimular a revolta-picuinha pelo retorno de um que abandonou tudo para buscar algo que nunca encontrou. É a figura do estrangeiro, que volta como visitante-forasteiro (que viu o mundo para talvez “jogar na cara” de quem não teve coragem a decisão do abandono). O cenário, uma pequena vila de pescadores nos litoral maranhense, abriga-se no tempo do realizador húngaro Bela Tarr, na catarse alegórica-naturalista de “Bacurau”, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e no sensorial-caseiro editado do cineasta Humberto Mauro.

“As Órbitas da Agua” é acima de tudo um registro de imagens intimistas, como um banho de lama, que pode soar gratuito, vazio e com que sobre o nada, mas que na verdade é a representação do tudo (o contexto) pela liberdade aleatória do olhar. É imagético, atávico, desordenado, incompatível, descontínuo e altamente vivo. E por detalhes que compõem toda a mise-en-scène deste episódio final da “trilogia dantesca”, que se iniciou com “O Exercício do Caos” (2012) e “O Signo das Tetas” (2015).

Sua trilogia acontece por um incômodo com o próprio ser humano, que invoca Jean-Paul Sartre e seu “o inferno são os outros”, mas se baseia quase integralmente no “Inferno de Dante”, por mesclar neo-realismo italiano, barroquismo e humanitarismo do indivíduo como uma “comédia divina”. Talvez nossas idiossincrasias e intolerâncias causem risos no céu. Vai saber! Dante Alighieri foi exilado de sua terra natal e abandonado por seus parentes. Assim, o que resta? Sobreviver sozinho dentro da própria individualidade absoluta.

Sim, “As Órbitas da Agua” é um exílio por todos os lados. Cada um, reverberado em seu diretor Frederico Machado, constrói uma proteção-casca-casco. Especialmente pela narração-literária-poética. Uma defesa silenciosa para mascarar medos, tristezas, crenças, covardias e até mesmo otimismos e esperanças, à moda de uma peça de William Shakespeare que encontra Herman Melville de “Moby Dick” e/ou “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. Com setenta minutos, o longa-metragem desenvolve-se por tempos contemplativos, rigor técnico da fotografia de Ben Real (e iluminação de Manoel Pinheiro), domínio-sensibilidade única da direção e pelas cenas pós-créditos (fique até o final). Seus atores encenam o não falar por reações oculares dotadas de significados, vivências, passados, tatuagens, falhas, alegrias, culpas e cicatrizes, como o balançar de um barco, na primeira cena, que leva duas pessoas: a mulher (Rejane Arruda) e o homem (Antonio Saboia, que também viveu um “forasteiro misterioso” em “Bacurau”, e em “Lamparina da Aurora”, também do diretor em questão aqui).

É uma auto-catarse. Um auto-encontro. Uma terapia de cognição compartilhada e retro-estimulada à cura. Pela lama que renova. Pela trajetória de um corpo que percorre ao redor de outro sob a influência de alguma força. E pela água que é a maior constituinte dos fluidos dos seres vivos. São os signos básicos que regem a natureza. Contudo, “As Órbitas da Agua”, com produção original Indie Cine, e que estreou no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2019, é um filme que orbita demais, talvez pela quebra brusca do silêncio com a chegada demasiada dos diálogos, que se transformam em necessidades didáticas ao público, mas isso se auto-descortina ao se manter a construção de um tempo-epifania, quase negativado e vertiginoso. É, a mensagem é clara: somos todos estrangeiros de nós mesmos.

 

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