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As Melhores Coisas do Mundo

Ficha Técnica

Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Luiz Bolognesi
Elenco: Caio Blat, Paulo Vilhena, Francisco Miguez, Gabriela Rocha, Denise Fraga, Fiuk, Gustavo Machado, José Carlos Machado, Gabriel Illanes, Julia Barros.
Fotografia: Mauro Pinheiro Jr.
Trilha Sonora: Bid
Direção de arte: Cássio Amarante
Figurino: Caia Guimarães
Edição: Daniel Rezende
Produção: Caio Gullane, Fabiano Gullane, Debora Ivanov, Gabriel Lacerda
Distribuidora: Warner Bros.
Estúdio: Warner Bros., Gullane Filmes, Buriti Filmes
Duração: 107 minutos
País: Brasil
Ano: 2009
COTAÇÃO: MUITO BOM

Apresentação ao Filme

Confesso que fui assistir ao novo filme de Laís Bodanzky, da mesma diretora de “Chega de Saudade” e “Bicho de Sete Cabeças”, com um certo preconceito ao tema apresentado, já que o trailer prévio não ajuda em nada a escolha. Os motivos da minha ida ao cinema foram competência da realizadora em trabalhos anteriores; o sucesso de público e da crítica; e o conhecimento de como o filme foi pesquisado e preparado. Com isso, esperei a segunda semana de exibição, assistindo na última sessão de uma segunda-feira no Cinema West Shopping, em Campo Grande, Rio de Janeiro. Mesmo com o frio europeu da sala, o filme retirava minhas ressalvas e engolia minha atenção. Saí com vergonha do meu conceito pré-estabelecido e extasiado por ter vivido uma experiência competente de técnica e da própria trama.

A opinião

Entender o período da adolescência, de quatorze aos dezessete anos, soa complicado. O mundo de hoje, ambiente destes pré-jovens, engloba a novidade com uma velocidade que cresce rapidamente. A dificuldade de acompanhar tendências, manias e costumes, gera a culpa, solidão, depressão e a falta de questionamento do certo e do errado. Há várias cadeias pensantes diversificadas. Uma delas expõe que o problema vem dos pais, já que se comportam como ausentes, como fornecedores de permissões não estudadas, como não limitadores, como não criadores e seguidores das regras. Os que deveriam educar passam a responsabilidade aos que deveriam ser cuidados. Há uma inversão de valores, porque transmitem aos professores e os amigos a educação básica do individuo. O interessante neste filme caracteriza-se pela forma como a pesquisa foi feita. Respeitaram-se as características inerentes ao grupo em questão. Retratou-se o universo real, com diálogos reais e reações menos ficcionais. Os adolescentes participaram do roteiro e do processo de formação, escolhendo, palpitando sobre elementos. A conseqüência expressou-se num tema do realismo, com vivências próprias, porém com o limite do real e do inventado.

Com apoio promocional da Globo Filmes e inspirado na série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto, o filme narra o período de um mês na vida do jovem Hermano (Francisco Miguez) e seus amigos, que estudam em um colégio de classe média da capital paulistana e enfrentam os dilemas característicos da adolescência: o medo de ser o humilhado da vez, os amores, a melhor amiga, a escola que emburrece…

“A gente só é feliz na infância”, diz-se, com ações não clichês, quando narra as descobertas e enfrentamentos da idade dos quinze anos. Há agilidade nas imagens, objetivando a necessidade da correria destes personagens. Eles precisam viver todas as coisas em um instante só. A câmera capta o estado perdido e passional desses adolescentes. Vivem problemas com os pais, ser virgem ou não, vencer os preconceitos e as amarras que a vida os limita. Intensificam as experiências e nem sempre possuem sabedoria para escolher a melhor decisão. Há idas a procura de prostitutas por vinte minutos, pagos com vales, há paixões de alunas por professores mais velhos, há pai homossexual, há sofrimento.

A crueldade desta idade – excluindo os diferentes, expondo fraquezas e rachaduras da vida de alunos, por diários virtuais (blogs) ou por desenhos que denigrem – apresenta-se recorrente, servindo como uma espécie de defesa dos próprios medos e defeitos. Um personagem fuma, porque está apaixonado por uma garota que também fuma. “Ela fuma. Fumar é ruim. Eu to apaixonado por um paradoxo”, diz. Outros são influenciados por amigos a beber e a fumar narguilé. Há a famosa cena da camisinha. A mãe dá uma camisinha ao filho e encontra vergonha de conversar sobre sexo.

Os atores – principalmente os não atores – interpretam com uma incrível naturalidade e transformam os veteranos em coadjuvantes. Mas acho que o que o longa queria mostrar era isso mesmo. O foco não é direcionado aos pais e sim aos filhos e as suas vidas conturbadas. O aprofundamento deles não descamba para o sentimentalismo e ou falta de. Há o equilíbrio entre o sofrer e o normal, como a cumplicidade de mãe e filho quebrando ovos, demonstrando a catarse do sofrimento guardado.

“Cala a boca! O que você entende da vida?”, sobre a mãe que repreende o filho. “Não podia ser uma tragédia normal”, sobre os acontecimentos de uma vida pré-jovem. Mano, o irmão, os amigos e colegas de escola sofrem com a timidez, solidão e com a ingenuidade de se viver intensamente sem a dicotomia do certo e do errado. Muitos escolhem os relacionamentos interpessoais por mensagens de textos de celulares estando há menos de cinco metros do outro. A introspecção do medo. O irmão expurga no mundo virtual as amarguras da alma. “Uma cópia falsificada de mim mesmo”, escreve no espaço… “Aqui é uma bolha sem ar”. O que se escreve é um pedido de socorro, porém os pais não sabem porque não se interessam por acompanhar e ler as palavras do filho.

Os detalhes mostram o confronto com o desconhecido e a massificação dos outros por um padrão surreal a ser seguido. Uma aluna cria um blog que instaura fofocas sobre a vida de outros alunos. O preconceito grita, esperando punição. Como não tem, só resta a crescente atualização diária dessas informações.

Os elementos atuais de remédios antidepressivos dos pais – ingeridos pelos filhos para chamar a atenção – são validos e necessitam ser abordados, por serem conseqüências de tentativas de suicídio. “Para acertar, a gente tem que saber o que esta fazendo de errado”, diz-se para recuperar o caminho da trajetória perdida em valores incompreensíveis. “Mundo = tragédia de erros”, escreve-se. “Talvez o problema seja o distanciamento objetivo” sobre um psicólogo. Os pais discutem em uma reunião de escola. “Ser adolescente agora é diferente do que era”, dizem.

O tema é sobre pequenos jovens, mas o teor direciona-se aos adultos, por comporta-se de maneira madura, direta e sem abrandar discussões. Os diálogos são sóbrios. Eles buscam as coisas simples, como fazer sexo pela primeira vez. O foco e a falta de foco transmitem mudanças de estágios dos personagens. A impulsividade talvez seja a característica mais marcante nesta idade. O universo deles como a eleição da chapa dos alunos, como a peça existencialista de outros mais adultos, o amor obsessivo, a prepotência da razão da opinião própria e resoluções de futuros amorosos. “Ninguém escuta a minha dor”, diz-se.

A musica vem de dentro para fora. O som da guitarra ao invés do violão fornece o tom do individualismo e rebeldia de uma musica de Bob Dylan. A ambientação inclui Beatles (Something), único filme brasileiro que conseguiu licenciar uma musica do grupo inglês. “Uma bomba relógio ambulante”, define-se para depois concluir “Não é impossível ser feliz depois que a gente cresce, só é mais complicado”.

Vale muito a pena ser visto. É despretensioso, realista, normal, inteligente, divertido, instrutivo e não julgador. O preparador de elenco, Sergio Pena, faz um trabalho excelente exprimindo interpretações viscerais sem serem afetadas e obvias. Recomendo o filme e o site

“O universo adolescente não é retratado no cinema brasileiro. Quando é retratado é de maneira caricatural. E, esse, é um público ávido por informação. Esse recorte me encantou. Falar do adolescente e para eles. Ou seja, usando a linguagem deles. Falar com sinceridade sem ser de cima para baixo”, disse a diretora.

Finalizando a Sessão de Cinema

Eu tenho o habito de esperar os créditos do filme acabarem de aparecer na tela, porque respeito todos os profissionais que trabalharam na obra e porque sempre acho que terá alguma parte final escondida. Enfim. Uma funcionaria do cinema virou-se para mim, antes dos créditos finalizarem, e disse “Acabou moço, vai embora. Eu to cansada”. Mas bati o pé, podendo ser esganado pela raivosa funcionaria, e fiquei até o final. O clima pesou e quase fui arrastado da sala de cinema pelo segurança do shopping. Portanto, cuidado com este cinema e com esta “profissional” que ficou na saída do cinema 2.

A Diretora

Laís Bodanzky (São Paulo, 23 de setembro de 1969) é uma cineasta e roteirista brasileira, diretora do premiado filme Bicho de sete cabeças e do documentário Cine mambembe – O cinema descobre o Brasil.

A diretora teve muita dificuldade para captação de recursos para o filme Bicho de sete cabeças, porque a maioria das empresas não queria ver o nome vinculado a um filme que falava de drogas, preconceito e hospícios. Entretanto e, ainda assim, o filme roi realizado, tendo no elenco os atores Rodrigo Santoro, Cássia Kiss e Gero Camilo, entre outros.

É co-autora do roteiro do curta-metragem Pedro e o senhor, dirigido por seu marido Luiz Bolognesi e que tem no elenco nomes como William Amaral, Nando Bolognesi e Gerson Steves.

A cineasta e o marido, Luiz Bolognesi, mantêm desde 2005 um projeto itinerante de exibição gratuita de filmes em cidades dos estados brasileiros de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Denominado Cine Tela Brasil, o projeto é mantido com o apoio cultural do Sistema CCR (Companhia de Concessões Rodoviárias), empresa que comanda várias concessionárias brasileiras de rodovias, entre elas a NovaDutra (que controla a Via Dutra, principal ligação rodoviária entre São Paulo e Rio de Janeiro).

Dentro de um caminhão, o Cine Tela Brasil consiste em uma grande tenda de 13m x 15m, onde são instaladas 225 cadeiras, equipamento profissional de projeção 35mm (cinemascope), tela de 7m x 3m, som estéreo surround e ar condicionado. Toda a estrutura é montada e desmontada a cada visita, sendo transportada por um caminhão próprio, que durante as sessões transforma-se em cabine de projeção. As sessões têm duração média de uma hora e 30 minutos, sempre com a exibição de um filme brasileiro de longa-metragem. O projeto promove quatro sessões diárias de cinema.

Até final de julho de 2007, o projeto havia visitado 111 cidades, promovendo 1.355 sessões, e abrangendo um público de mais de 260 mil pessoas (taxa média de ocupação da sala foi de 86%).

Filmografia

2009 – As Melhores Coisas do Mundo
2008 – Chega de Saudade
2000 – Bicho de Sete Cabeças
1999 – Cine Mambembe – O Cinema Descobre o Brasil (documentário)
1994 – Cartão Vermelho (curta-metragem)

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  • Eu assisti O Fime as melhores coisas do mundo, e assim como o autor desta coluna, recomendo para jovens e adultos, pois além de ser extremamente legal,possui um fundo "educativo" por trás de toda a história. Sou um adolescente e comprovo que tudo o que foi retrarado no longa acontece nos dias de hoje. Parabéns pelo Filme e pela matéria.

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