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@Arthur.Rambo – Ódio nas Redes

O mal do "filme necessário"

Por Pedro Mesquita

@Arthur.Rambo – Ódio nas Redes

Há certos filmes cuja produção e distribuição são justificadas pelo fato de tratarem de questões atuais consideradas relevantes. Falar sobre elas é, afinal, atrativo de um ponto de vista financeiro: os assuntos que estão na crista da onda cultural são facilmente identificáveis pelo espectador e passíveis de engajamento por ele; por isso, garante-se um bom público. Ademais, cria-se a noção do “filme necessário”: aquele que trata de um assunto importante demais para ser ignorado pelo público; aquele cuja fruição por parte do espectador é quase uma obrigação moral, pois ele deve educar-se acerca do problema social que o filme mostra. Sob esse ponto de vista, um filme que aborda um fenômeno tão debatido atualmente como a “cultura do cancelamento” — como é o caso de “@Arthur.Rambo – Ódio nas Redes” — pode parecer, a princípio, um filme extremamente necessário.

O problema com esse tipo de pensamento, segundo o qual podemos definir a priori que filme deve ou não ser visto de acordo com o seu conteúdo, é que ele prescinde da forma para avaliar os filmes. Ora, se um filme que aborda uma questão de suma importância social pode ser considerado automaticamente bom por causa disso, então é como se o filme em si não importasse: basta ler o seu argumento. Usando a arte como mero “receptáculo de questões sociais relevantes”, desvalorizamos a própria arte. Voltemo-nos, portanto, à presente obra, a fim de ponderar se o predicado “necessária” lhe serve.

“@Arthur.Rambo – Ódio nas Redes” parece de fato, desde o seu início, almejar o retrato dos tempos atuais. Vemos uma França multicultural, em que o protagonista, Karim D. (Rabah Nait Oufella), é um jovem franco-argelino cuja carreira de escritor está em vias de decolar. Homem progressista, ele concede entrevistas nas quais relata as dificuldades de seu povo — e, em especial, da sua própria família, sobre quem escreveu seu livro —; com isso, sua popularidade nas redes sociais só faz aumentar. Esse fenômeno das mídias sociais, aliás, é outro que o filme deseja replicar com alguma verossimilhança: na primeira cena do filme, já somos colocados diante de uma profusão de telas (televisões e celulares), tweets, manchetes de jornal… aqui, já fica claro como “@Arthur.Rambo…” é também um filme sobre como a vida contemporânea é inevitavelmente (e incessantemente) mediada pelos meios de comunicação digitais.

A seguir, uma revelação súbita: torna-se público que Karim D., aos 16 anos de idade, utilizava uma conta alternativa no Twitter, sob o pseudônimo de Arthur Rambo — uma brincadeira com os nomes do poeta Arthur Rimbaud e do personagem fictício Rambo —, na qual publicava mensagens de teor criminoso: entre elas, havia apologia ao terrorismo, antissemitismo, homofobia etc. Tudo isso acaba, naturalmente, destruindo a carreira do jovem escritor.

Nesse momento, uma aparente contradição emerge: a personagem eloquente e esclarecida de outrora torna-se opaca. Se, na cena da entrevista, Karim aparece expondo seus pensamentos com certa facilidade, a partir da revelação da sua “vida dupla” ele perde a capacidade de fazê-lo. Além disso, o próprio filme, apesar de situar-se plenamente no posto de vista da personagem, não permite que o espectador acesse os seus pensamentos: será que ele realmente acreditava naquilo que disse no passado? Terá ele se arrependido daqueles tweets? A sua expressão impassível revela muito pouco. 

Assim, formula-se uma espécie de comentário existencial: é como se Karim fosse de fato incapaz de se identificar com o seu eu do passado; ele não consegue se considerar culpado por aquele crime, visto que ele não é mais aquela pessoa; ele não aceita se limitar por aquelas características que os outros lhe consideram essenciais. Por outro lado, já que os seus pensamentos, por mais fugidios que sejam, tenham sido fixados na internet na forma de tweets, o mundo lhe cobra que ele ainda seja a sua versão passada, que ele responda pelos seus crimes do passado.

É assim que o filme se sucede, de maneira bastante monótona — Karim sempre incapaz de reagir às inquisições das demais personagens —, rumo ao seu final, no qual o jovem renega aqueles que o abandonaram e embarca numa viagem de carro, solitário. A cena, filmada num bonito enquadramento em que as luzes da cidade se fundem com a sua figura e ornada com uma trilha musical melancólica, parece resumir, em toda a sua obviedade publicitária, o argumento do filme: “olhem só para este pobre coitado”. O final de “@Arthur.Rambo – Ódio nas Redes” possui um claro apelo moral, objetivando criticar a dita “cultura do cancelamento”; mas para que ele funcione, simples como é, o filme precisou abstrair todas as questões — políticas, sociais, culturais — que tornariam o retrato de Karim D. minimamente cativante: quais as causas, as raízes, do seu comportamento? (o filme parece disposto a adentrar essa discussão apenas brevemente, na cena em que o irmão de Karim concorda com os seus tweets e explica como eles se relacionam com a realidade dos imigrantes).

O filme de Laurent Cantet parte de uma premissa interessante, mas a realiza com a complexidade de uma peça publicitária contra o linchamento virtual. É desse tipo de arte que precisamos?

1 Nota do Crítico 5 1

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