Antidistúrbios

A contradição no interior do proletariado

Por João Lanari Bo

HBO MAX

Antidistúrbios”, de 2020, é a série que chega à HBO depois de, literalmente, eletrizar a audiência espanhola. Nessa ocasião, um dos mais importantes sindicatos policiais da Espanha reagiu de forma, digamos, direta: “a série é um verdadeiro lixo. Que tenha tido apoio do Estado para sua realização … mancha a imagem da UIP (Unidade de Intervenção Policial) e dos profissionais que compõem a elite da Polícia Nacional”. Quase 3 mil policiais compõem a referida Unidade: cerca de 40% de suas intervenções são voltadas para a coordenação e controle de eventos esportivos, abrangendo mais de 400 partidas de futebol por ano. Em um dos episódios da série, nos arredores do estádio Santiago Bernabéu, em Madri, uma partida de futebol reúne o time da casa contra o Olympique, de Marselha: centenas de torcedores franceses provocam os policiais e na confusão um deles cai gravemente ferido. Em 2016, algo semelhante aconteceu na capital, com os seguidores mais violentos do Légia Varsóvia. Uma dezena de torcedores foi detida, e violentos confrontos nas proximidades do campo do Real Madrid deixaram dois policiais gravemente feridos. O dispositivo policial era exatamente igual ao apresentado na ficção: um grande número de policiais cercou os torcedores e os escoltou, como se estivessem atuando como cercas humanas.

Para Michel Foucault, o “espaço” da polícia historicamente foi o espaço da cidade: “no início, a noção da polícia aplicava-se apenas ao conjunto de regulamentos que deveriam assegurar a tranquilidade de uma cidade”. Com a emancipação das classes trabalhadoras, sobretudo a partir do século 19, a polícia passou a atuar também com o objetivo de introduzir uma contradição no seio do proletariado, entre aqueles que estão inseridos no processo produtivo e os que estão excluídos desse processo. Os aparelhos jurídicos assim montados têm efeitos ideológicos específicos sobre cada uma das classes sociais dominadas: os seis integrantes do batalhão de choque de “Antidistúrbios”, que centralizam a narrativa, abrem a série atuando exatamente nesse limiar entre incluídos e excluídos, que na alvorada do século 21 significa atuar sobretudo vigiando e punindo imigrantes em situação irregular, em sua grande maioria provenientes da África. A ação do batalhão resultou em uma morte: a de um homem senegalês, alvo de despejo de sua moradia em Lavapiés, bairro popular de Madri; ele caiu do parapeito quando a polícia o pressionou junto com outras pessoas. De novo, correlações com a realidade: em março de 2018, durante uma operação policial, um senegalês sofreu um ataque cardíaco e morreu, no mesmo bairro madrilenho. Seguiram-se protestos da comunidade e entidades de direitos humanos. Segundo a produtora Sofía Fábregas: “filmamos na Plaza Nelson Mandela e metade dos figurantes tinha estado nas manifestações que ocorreram naquela praça um pouco antes”.

O foco narrativo de “Antidistúrbios” orienta-se a partir dessa morte para as investigações da corregedoria da polícia sobre o batalhão, em especial da jovem investigadora, obsessiva e incansável, Laia Urquijo. Como pode ter acontecido esse exagero na repressão policial, a morte de alguém inocente, que estava defendendo seu direito de moradia contra a especulação imobiliária? Os seis atores do batalhão passaram por treinamento físico para desempenhar seus papéis: também entraram em contato com policiais para saber o que eles e seus empregos significavam. “Ao conhecer essas pessoas, seu trabalho e as dificuldades, você entende que é um trabalho complicado e meus preconceitos foram desmontados”, disse um dos atores. Um roteiro eficiente e a incrível agilidade da câmera, acrescida de edição milimétrica, dão ritmo adequado para os maratonistas do streaming: isso não quer dizer que sequências mais estáticas estejam ausentes, pelo contrário, o núcleo dramático se fragmenta nos dramas privados dos protagonistas, adensando a interação emocional entre eles e o círculo à sua volta. Traições entre os pares na UIP – uma das razões da revolta do sindicato de policiais em relação à série – e as intuições de Laia acabam elevando a trama para um patamar mais complexo, o da corrupção institucional: onde não faltam, também, conexões com o mundo real … a referência seria o ex-Comissário de polícia José Manuel Villarejo, alvo de 25 investigações que envolvem gravações de políticos e figuras públicas que parecem um “Quem é Quem” da Espanha moderna.

Uma das crises mais importantes da história espanhola recente foi o movimento de independência catalã: naquela altura, a tropa de choque da UIT enviada à Catalunha para ajudar na contenção dos protestos pegou um navio de cruzeiro com desenhos de Piu-Piu, Frajola e outros personagens da série de animação Looney Tunes: este é um fato real, que virou, naturalmente, uma fonte inesgotável de memes. Pois até nesse evento picaresco e delirante os criadores de “Antidistúrbios” foram buscar inspiração. Ficção ou realidade? acredite, enfim, no que quiser.

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