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Amor, Sublime Amor

Danças censuradas

Por Ciro Araujo

Oscar 2022

Amor, Sublime Amor

Em um beabá pré-programado da indústria, surge “Amor, Sublime Amor”, uma recriação de Steven Spielberg do original de 1961 que por consequência é adaptação do musical de 1957. A sentença não é apenas introdutória, ela é demonstração da essência dramática que comunicativamente atinge os Estados Unidos: a observância de uma camada desfavorecida em combinação ao movimento imigrante no país. “O surgimento das tribos urbanas”, pode-se ver assim. A escolha para entregar uma nova versão quase sessenta e cinco anos depois é visto obrigatoriamente como uma resposta cultural ao crescimento ideológico da população norte-americana (e europeu, o famoso “mundo ocidental) anti-migratório. Por consequência, o tradicional questionamento permeia ainda na obra recente: existe a necessidade, ou ao menos faz jus ao nome, da sua existência?

O nome Steven Spielberg vende. E como vende. Com a produção da 20th Century Studios, da finada FOX, “Amor, Sublime Amor” parece ser um gerador inconsciente de formalismos. O diretor, ícone americano dos anos oitenta, hoje é detentor de uma cadeira esquisita como cineasta. Suas assinaturas são desproporcionais para sua antiga linguagem academicista que ele próprio determinou para a contemporânea Hollywood. Pois é assim que percorre a refilmagem: um amontoado de orçamento interplanetário, neblina envolta, set controlado. Todos dançam, como todo bom musical americano. Mas apesar de todos os artifícios do mais alto calibre, eis que é um filme com articulações duras, pouco fluidas. Suas cenas são claustrofóbicas, cortes esquisitos e sem a menor estrutura rítmica. Serve como prova de que Spielberg é uma grande sombra que circula os Estados Unidos como um mito cinematográfico, uma vez comparado até com seus clássicos, como “Tubarão”. Ora, se é um musical com coreografia, que permita ao espectador assistir logo as danças, e não as censure! Ao menos as canções continuam com a mesma potência (se não mais), complementadas com uma textura sonora de trompetes e novos instrumentos. Tudo para criar um verdadeiro espetáculo, porém sem o espetáculo (visual).

A verdadeira estrela da vez acaba ficando para a escolha do elenco, pela sua potência em arrastar toda a atenção para si, suas polêmicas e acertos. Ansel Elgort, saindo de um contexto sensível e problemático, entrega uma turbulenta apresentação de frases, emoções e pouca cantoria. Ou seja, uma adaptação quase fidedigna da qualidade original (de 1961) do personagem de Tony. Maria (interpretada pela nova queridinha Rachel Zegler), o lado latino do negócio, ao menos recebe uma proporção que é mais a cara de um mundo progressista e pelo menos mais prudente: são interpretados pela mesma etnia, sem maquiagem para como disfarce. Os anos passam, o entendimento norte-americano sobre a própria realidade muda e por consequência permitem que novas produções assim sejam relidas. Ironicamente, o casal protagonista continua com uma química tão fraca que faz o espectador se envolver muito mais no contexto dos embates entre duas gangues. O trabalho empolgante que se faz sobra para Mike Faist e David Alvarez que são, respectivamente, Riff e Bernardo. Existe uma compreensão dos dois no texto da problemática racista na sociedade moderna estadunidense, algo que é descendente dos roteiros originais, o que justificam a chamada “história atemporal” que “Amor, Sublime Amor” percorre.

Claro, como novidade nos é apresentado a gentrificação, como se fosse um processo novo, então de forma descarada e apenas também em momentos tão pontuais que se tornam supérfluos.  Dentro do processo narrativo, político e cultural entra a artificialidade estrutural, uma falta de respiros e compreensão do próprio produto audiovisual, cuja semântica está, aparentemente, em falta. O mencionado “beabá” parte desse princípio, uma repetição do que já é repetido anteriormente, porém se adaptando ao mercado, assim se fortalecendo como um bom complemento para quem estude esses fenômenos a partir do também dirigido por Spielberg, “Jogador Nº1”. É um formalismo não apenas artístico, como empresarial, uma mescla que faz inclusive a escrita da crítica como repetitiva, pois novidade alguma é encontrada. A refrescância tanto procurada dentro de um modelo acaba estacionada em qualquer lugar, pois “Amor, Sublime Amor” age como um videogame novo, onde os responsáveis pela produção decidem instalar novas funcionalidades que representem mais uma geração contemporânea. A questão, no fim das contas é, se seu texto é tanto atemporal, porquê seria necessário essa atualização tão sistemática que parece até óbvia que seria dirigida por um Spielberg de dois mil e vinte e um?

2 Nota do Crítico 5 1

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