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Amor e Morte

Eu sei que eu vou te amar

Por João Lanari Bo

Amor e Morte

O ato sexual é no tempo o que o tigre é no espaço (Georges Bataille)

Amor e Morte”, lançada em abril de 2023, é a minissérie da HBO em sete episódios mais carimbada com a famosa cartela, baseada em eventos reais, a qual literalmente abre todos os episódios. É como se o combalido telespectador, assoberbado diante do caudaloso fluxo de universos ficcionais que absorve diariamente, fosse colocado frente a um suplemento de realidade que reproduz com verossimilhança absoluta – se é que isto é possível – o que se passou em determinado tempo e espaço. Verossimilhança: qualidade do que é verossímil, que parece ser verdadeiro ou que tem condições de realmente ter acontecido. Eis o que aconteceu:

Em 1978, Candy Montgomery era uma mãe de dois filhos com 29 anos de idade, quando começou um caso com Allan Gore, que era casado com Betty, uma das amigas de Candy. O trio, junto com o marido de Montgomery, Pat, frequentava a Igreja Metodista da pequena cidade de Wylie, Texas. Nesse cenário impecável, Candy sai em busca de emoções e comunica a Allan, como se estivesse negociando um acordo comercial, sua atração por ele: depois de alguns meses de encontros, com sexo e camaradagem, Allan resolve terminar – sua mulher estava grávida. Apesar de Candy ficar contrariada, não houve confronto. Em 13 de junho de 1980, Allan estava fora da cidade e não conseguiu falar com a esposa. Naquele dia Betty foi morta com 41 golpes de machado.

Amor e Morte”: o título soa como lugar comum melodramático, mas traduz também uma conjunção profunda. Georges Bataille, um pensador que se ocupou desse, digamos, assunto de família, asseverou: Em essência, o amor eleva o sentimento de ser pelo outro a tal ponto que a ameaça de perda do amado ou a perda de seu amor é sentida não menos intensamente do que a ameaça de morte. A dona de casa entediada é uma personagem conhecida: casamento monótono, rotina das tarefas domésticas, cozinhar e arrumar a casa, filhos pequenos, uma lista extensa de atividades – e a Igreja como polo social, leitura de parábolas em voz alta, até um curso de escrita criativa. A vida de Candy parece preenchida, salvo por um aspecto sutil, excessivo e inquietante: ela tem total consciência, e sem remorsos, de seus apetites sexuais. Naturalmente, o código da Igreja é contrário a essa pulsão, mas ela racionaliza: não há desonestidade alguma em realizar seus desejos.

Uma pulsão que é também, diria Bataille, uma pulsão de morte. O drama se organiza: Allan é totalmente sem graça, mas é quieto e gentil, contraponto perfeito para a assertiva Candy. Ele intui a vulnerabilidade que sua mulher, a instável Betty, esconde: mas subestima a capacidade dela de suportar a dor. Pat, marido de Candy: desajeitado socialmente, alguém confiável e leniente, mas maçante, destaca-se apenas pela voz no coral da Igreja. Allan é o duplo de Pat, e vice-versa: ambos têm empregos ligados à indústria tecnológica, e discutem as próximas missões do ônibus espacial da NASA, que começou a voar em 1981. Tudo flui nessa narrativa verossímil, tal como deve ter sido na vida real – os gestos se repetem, as cortesias e as maledicências também, o novo Pastor desperta comentários, mas nada que provoque mais do que pequenas marolas. Bem vindos ao american dream.

Amor e Morte” aposta sua eficácia imersiva nessa reprodução obstinada de um microambiente, desnecessário enfatizar, trivial. Onde está o diferencial? David Kelley, o criador da série, é um veterano e talentoso escritor: Lesli Linka Glatter, diretora igualmente capacitada, dirigiu cinco dos sete episódios. Mas é nos atores, em particular na dupla Elizabeth Olsen (Candy) e Jesse Plemons (Allan), que se dá o salto de qualidade. Olsen consegue transitar entre a assassina sangue-frio e a esposa cumpridora dos seus deveres, inclusive na Igreja – por uma infelicidade, sua vida foi abalada por um dia ruim. Plemons situa Allan entre o abusado e o indolente, uma composição aparentemente simples, mas de difícil execução. Quando sua personagem se retrai, após o crime, ocupa a cena outro formidável ator, Tom Pelphrey – que personifica o advogado, um falastrão com sotaque texano.

Para além da verossimilhança, a minissérie toma a sério, enfim, a construção dramática dessa tragédia moderna – e quer ser tão complexa quanto a história da vida real em que se baseia.

3 Nota do Crítico 5 1

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