Amizade Maldita

E o debate?

Por Vitor Velloso

Como uma pequena surpresa nos últimos lançamentos de terror no Brasil, “Amizade Maldita” de Brandon Christensen é uma espécie de “Babadook” sem orçamento, com mais sustos e um bocado de falsos finais. A relação presente no filme passa por uma questão dramática tão direta quanto a psique de seus personagens, as luzes jogadas em traumas e memórias são miragens de distração do filme para as questões de abuso e de um terror direto, imediato, que não chega a grandes conclusões. Assim, uma leitura apressada pode construir relações exteriores às necessidades apresentadas pela obra, acreditando que há um arquétipo para além da forma cinematográfica, que está presente de maneira irremediável em sua construção.

Em verdade, o filme é um espectro da indústria cinematográfica do gênero, circulando uma abordagem mais próxima da década de 80. Sem tirar nem pôr, o longa se mantém à cartilha simples de como construir jumpscares, adaptando o estilo de “Babadook”, a partir do monstro domável, interior. Dessa maneira, pode-se chegar à leituras múltiplas da própria criatura que carrega o título ou particularmente sobre questões da construção do filme em si, porém, para além de uma padronização formal, logo, do discurso do gênero como esse objeto sintetizado em violência, sustos e um monstro que aparece em formas diferentes, não existe aqui espaço para uma possível patrulha em sua construção dramática, com exceção de relações abusivas, um completo descaso paterno, uma sobrecarga feminina, um machismo estrutural retumbante etc. Ou seja, recorrer à grandes leituras além do grau expositivo do filme, podem gerar alguns desvios intelectuais graves.

Como dito, em síntese primária, “Amizade Maldita” está mais preocupado em alçar algum sucesso nas bilheterias e garantir uma produção com mais orçamento, que necessariamente debater suas questões dramáticas. Não à toa, possui inúmeros momentos em que ensaia um fim, mas retorna para abrir “teorias” e “discussões pós-sessão”. E o que vemos, é uma perpetuação das relações abusivas, como um ponto basilar da própria narrativa. Desta forma, o longa mantém sua estrutura com “interesses em aberto”, sem se comprometer com nenhuma de suas pontas, para isso, conta com uma trama que segue de forma linear sem grandes parábolas, exposição nos diálogos, um punhado de jumpscares previsíveis e uma questão estrutural severa, que atinge diretamente o psicológico de suas personagens, que é mantido como um gênese dos problemas ali demonstrados. Então, o problema são os medos e traumas da mãe? Logicamente que não. Cabe relembrar, aos que assistiram, que nas demonstrações mais explícitas do personagem-título, temos um desgaste emocional severo, com uma sobrecarga intensa, não à toa, a forma que o “monstro” se apresenta é um resultado da situação (em um dos momentos nem surge como ameaça).

Se desvirtuarmos essas questões apresentadas pela obra, estaremos falando de algo que queríamos ver ali, ou fazendo uma leitura apressada do que é, de fato, apresentado. Está claro que as multiplicidades são frentes possíveis que o diretor permite para que haja a cadeia de acontecimentos. Não à toa, o desfecho é constantemente revogado e a “atmosfera” vai se perdendo, transformando-se em monotonia. Essa incapacidade de decisão para a construção e encerramento, fica explicita na quantidade de personagens apresentados à esmo e esquecidos com semelhante facilidade. Talvez por falta de cordialidade, para não acusar de falta de compreensão crítica da representação, é possível acusar o filme de alguma frente ideológica reacionária., quando deve-se acusar de fato, que tal adjetivo (assim fixado na contemporaneidade), está presente na própria indústria, não como uma frente de interpretação do longa em si. Recusar que os personagens masculinos são os problemas diretos de toda a questão narrativa, é estar em conluio com qualquer acusação que se faça na “representação” feminina aqui construída.

“Amizade Maldita” é um filme funcional, com menos de noventa minutos, que não debate nenhuma de suas questões apresentadas, nem mesmo abre grandes margens para tal. Mas acabou sendo interpretado como um possível atravessamento moral e ideológico. Não há como negar que tais questões são apresentadas, mas creio que devemos estar atentos às causas, não apenas às resoluções. Do contrário, estaríamos diretamente alinhados com a vulgarização do debate crítico, que compreende determinados pontos políticos gerados pela obra, como uma exposição para apresentações eloquentes de como não falar de política.

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