Agia Emi

Batismo no porto

Por Vitor Velloso

Festival de Locarno 2021

“Agia Emi” de Araceli Lemos presente na Concorso Cineasti del presente em Locarno, provoca algumas reações dicotômicas ao fim da projeção. O desenvolvimento do filme é lento e não engrena até os últimos minutos, não consegue encerrar suas ideias em uma narrativa sólida para justificar algumas escolhas estéticas que estão ali apenas para pavimentar um certo padrão “arthouse”.

A religião aparece como questão basilar e o fundamentalismo dogmático cristão é o ponto da alienação de certos personagens, que se esforçam para interromper a “bruxaria” e os “demônios” em Emi (Abigael Loma). Essa visceralidade no ódio dos europeus, terceirizada na comunidade católica filipina em Atenas, é o reflexo da mais-valia ideológica, onde o exotismo etnico se materializa nos fetiches de Argyris (Michalis Syriopoulos) e Akis (Julio Katsis), sexuais e religiosos. Até o lucro toma conta de seus pensamentos ao compreender que Emi “chora sangue”. O desejo eterno da fé cristã não vem na iconografia que esperavam, o medo é o primeiro sintoma da intolerância. E nessa articulação da religião como motor primordial dessas relações “Agia Emi” é capaz de criar alguns pontos de digressão interessantes, seja opondo essa idolatria imperialista (falada em inglês) ou mesmo tensionando as possíveis rupturas familiares.

Enquanto o filme é capaz de desarticular essas bases católicas na exposição do patético das situações, como a cantoria de “estou viva por causa de Jesus”, as coisas funcionam bem. Mas as investidas no gore e na violência imediatista não provocam grandes reações, provando uma certa manutenção complacente dessas bases. A marginalização de Emi é dada em uma representação que parece querer provocar algum choque pragmático nos simbolismos europeus, sem um movimento que fuja a banalidade. E isso se torna cansativo à medida que uma suposta “cura” vem através da aceitação de determinadas chagas, mas no caso da protagonista isso possui uma base dramática que não se desenvolve bem e permanece paralela durante a maior parte do tempo. Ainda que a cena do engasgo com o osso seja uma síntese da agonia europeia diante do desconhecido, essa consequência fetichista não encontra outros reflexos que ultrapassem um certo determinismo fatalista. A própria sequência de mulheres grávidas indo ao chão parece deslocada da unidade.

Mas o retrato dicotômico dessas culturas consegue manter o espectador interessado pela proposta de “Agia Emi”. Principalmente com a crescente intolerância de Teresa (Hasmine Killip), que o nome não parece por acaso, ao ser engolida pela verve odiosa de Lida (Angeli Bayani). A construção consegue ultrapassar a estranheza inicial da relação das irmãs e vai apresentando os problemas que ambas enfrentam com o distanciamento com a mãe. Mas tudo vai sendo deixado pelo caminho nessa iniciativa de uma “arthouse” brevemente às avessas. Os planos que focam diretamente na expressão dos personagens ao serem desafiados pela dor, o plano geral para gerar um certo imbricamento entre a iconografia e a iconoclastia e a objetiva incisiva no desconforto. A tentativa de perseguir esses simbolismos acaba sendo falha na própria estrutura e quanto mais esse choro de sangue se torna um dispositivo de conflito, as coisas vão perdendo o propósito.

Quando as relações de trabalho fazem parte da construção, existe uma materialidade inerente nas formas de opressão, traduzidas nas questões étnicas que vão se somando ao medo, mas quando o projeto foca em uma tentativa de desesperada de se aproximar de parte da indústria para transar com alguns gêneros cinematográficos, a ideia parece ceder mais que criar e isso afeta o próprio ritmo do filme, que vai se tornando desinteressante e rapidamente o espectador passa a olhar a hora para calcular o fim da projeção.

“Agia Emi” possui tantos altos e baixos que a experiência é dividida em fragmentos de seus êxitos. Acaba ambicionando uma distribuição mais palatável e passa a dialogar com esses recantos menos honestos de diversas potências que estavam ali presentes, mas não explora por criar rupturas “excessivas” aos olhos do mercado. Esse movimento de não desenvolver certas ideias para dar mais espaço para os conflitos simbólicos, faz com que a progressão seja cansativa e flerte com os grilhões de sempre. Não é uma estreia ruim no longa-metragem, pelo contrário, provou que tem algum repertório para queimar nos próximos filmes, mas aqui acabou perdendo a mão. A moral acaba sendo mais católica.

Trailer

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