Mostra Sessões Especiais do Vertentes: A Repescagem Janeiro 2026

Agentes Muito Especiais

Estrutura reconhecível

Por Vitor Velloso

Agentes Muito Especiais

Uma parcela das comédias brasileiras é capaz de debater temas contemporâneos com certa facilidade, entendendo o riso como um amplo palco. Determinadas obras se articulam para explicitar questões da sociedade brasileira, seus preconceitos e problemas estruturais e ou institucionais. “Agentes Muito Especiais”, dirigido por Pedro Antônio, até ensaia um leve contrabando de ideias, mas abandona cada uma delas na primeira curva da exposição. Por um lado, é interessante que o filme não perca fôlego com aquilo que não interessa diretamente à sua comicidade. Por outro, acaba romantizando, ou simplesmente ignorando, certas questões, o que pode acarretar interpretações enviesadas.

O filme, dedicado a Paulo Gustavo, parece estar o tempo todo sob uma sombra. Enquanto depoimento pessoal, é difícil dizer o quanto há de Pedroca Monteiro, que interpreta Johnny, tentando emular o falecido ator, ou em que medida esse olhar já não está condicionado pela própria memória do espectador. De toda forma, desde os créditos iniciais, que fazem questão de mencionar que a ideia original é de Paulo Gustavo, o projeto assume para si um peso simbólico, capaz de tocar o público de maneiras distintas, a depender de como se enxerga esse tributo.

Os minutos iniciais de “Agentes Muito Especiais” são eficazes ao estabelecer os elementos básicos da narrativa, apresentar as características de seus personagens, Johnny e Jeff, interpretado por Marcus Majella, a trama geral e o papel que cada um ocupa. Essa agilidade favorece o tipo de humor que se constrói, baseado em pequenas sketches que funcionam dentro de um todo em constante movimento. Ainda que tudo seja particularmente clichê e previsível, o filme se assume como uma espécie de tributo ao subgênero das duplas no cinema de ação, ou ao próprio gênero, com referências explícitas a James Bond, entre outras.

Por outro lado, essa necessidade constante de dinamismo empurra as representações para uma caricatura quase relaxada. Um exemplo evidente é a sequência de treinamento na academia de polícia, que envolve a estrutura militar da instituição e seus critérios internos. Se a intenção era, por meio de diálogos pontuais, articular uma crítica à instituição e ao seu funcionamento, o resultado prático é bastante limitado. A homofobia surge como nota de rodapé, insinua-se a possibilidade de existirem outros policiais gays na corporação que jamais se assumem, e toda essa linha é rapidamente abandonada. A sequência acaba servindo apenas para justificar a existência da dupla, ainda que de forma atabalhoada. Assim, o filme não se destaca nem em sua apresentação geral dentro do gênero, nem busca alguma originalidade em meio à padronização que aqui é assumida.

Marcus Majella possui um carisma inegável, mas a constante reinterpretação do mesmo tipo de personagem em projetos distintos começa a se tornar cansativa. Há tempos não se vê o ator buscar papéis fora de sua zona de conforto. Em contrapartida, Pedroca Monteiro tenta sustentar o outro lado da balança, conferindo alguma funcionalidade à dinâmica da dupla, especialmente dentro dos papéis fixos que cada um ocupa nesse tipo de narrativa. Ainda que a química entre os dois funcione, persiste, como mencionado anteriormente, a sombra de Paulo Gustavo na estruturação do filme, o que produz uma sensação de analogia constante ao longo de grande parte da projeção.

“Agentes Muito Especiais” é o tipo de longa que populariza o cinema brasileiro e alcança um público que, muitas vezes, não é atingido por obras rotuladas pela imprensa como independentes ou fora do eixo comercial, uma categorização que já deveria ser revista há algum tempo. De todo modo, trata-se de um filme que aposta majoritariamente na comicidade física, quase sempre caricatural, como motor narrativo, e que, quando possível, arranha apenas a superfície de uma crítica à sociedade contemporânea, em especial à heteronormatividade que atravessa o gênero cinematográfico, suas instituições e determinadas performances sociais.

Do ponto de vista formal, não há nada de novo em “Agentes Muito Especiais”. Pelo contrário, o filme recorre a usos bastante pragmáticos de movimentos de câmera, drones e recursos semelhantes. Aliás, o cinema mais comercial já se afastou desse tipo de articulação há algum tempo, mas isso não constitui um problema direto aqui, já que a lógica do produto é se tornar algo reconhecível, identificável e facilmente assimilável pelo espectador. O problema é que o amontoado de clichês acaba pesando, e uma lógica recorrente de câmera lenta acompanhada por trilha sonora de efeito se torna cansativa, sobretudo quando, dentro do próprio comércio nacional, esse expediente já foi explorado de forma exaustiva, inclusive na própria figura de Marcus Majella.

2 Nota do Crítico 5 1

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