Agate Mousse

A vanguarda de um eu sozinho

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Roterdã 2021

Integrante da mostra competitiva do Festival de Roterdã 2021, “Agate Mousse”, que se apresenta como uma experiência de intervenção imagética, traz acima de tudo o controverso questionamento de que se toda obra artística é considerado cinema, remoendo assim a essência e o propósito da imagem. A estética vanguardista deste, uma tipicidade dos festivais mais experimentais, em seus sessenta e oito minutos, busca abrigo na junção de Gaspar Noé, Bruce La Bruce e Andy Warhol.

“Agate Mousse” é sobre a trajetória de um artista, que “cria personalidade”, e sua “revolução geométrica”, “reproduzido” por um aspirante à moda rebelde de James Dean e Jean-Paul Belmondo, por causa do cigarro em seus lábios. É um filme-círculo (de simulação da imagem), entre exercícios de linguagem e experimentações formais. Um filme em movimento contínuo. De um ser criador que de tanto acreditar, sua arrogância vira material bruto da pretensão. “O enquadramento redondo desses retratos dos mortos é uma reminiscência do filme”, diz-se.

Busca-se energia sensorial das coisas. Pessoas “mineral”. Ondas elétricas que penetram sua cabeça. Saber o que é claridade. “Agate Mousse” é uma terapia-catarse de seu realizador libanês Selim Mourad (de “This Little Father Obsessio”), confrontado por um caroço encontrado em seu testículo e um abscesso em sua boca, estimula assim o medo da “transitoriedade” e da “decadência”. Um ciclo de nascimento e morte. E “corpos ancestrais”. Este “filme-ensaio”, de intimidade-“umbigo” traduz-se pela atmosfera de arte conceitual hippie-budista e por nomes de espécies extintas, recitadas durante um encontro de sexo no aplicativo gay Grindr.

“Agate Mousse” encerra a trilogia Linceul de Mourad, iniciado com os curtas-metragens “Linceul” (2017) e “Cortex” (2018). “Uma combinação de imagens pictóricas, experimentação de formas, motivos míticos e comentários filosóficos, que constitui um antídoto estético para o medo do Fim.”, a parte da sinopse, fornecida pelo diretor, tenta explicar. O filme costura, fragmenta e dispersa experimentações, entre a gratuidade da nudez e a inerência do solipsismo (doutrina filosófica que prega que só existem, efetivamente, o eu e suas sensações, sendo os outros entes (seres humanos e objetos), como partícipes da única mente pensante, meras impressões sem existência própria).

Dessa forma, “Agate Mousse”  é uma obra de destinação personalíssima, produzida, degustada e ofertada ao próprio artista “pensante”. Aqui não há ninguém mais, inclusive o público. Uma epitáfio de um legado que ainda está em processo. De exposição a uma cura unicamente individual.

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