Adeus à NoiteL'Adieu à la nuit

Ausência de Propósito para Rarefações Dramáticas

Por Michel Araújo

 

Na construção de um drama clássico-narrativa, é notável sempre a capacidade de um filme de coordenar e orquestrar o encaminhamento emocional bem como as nuances de excitação e espectação. Essa palavra é importante para o entendimentos dessas proposições: espectação. Como diferenciado sabiamente pelo autor Jonathan Crary, existe uma diferença entre “espectador” e “observador”. O “espectador” é mais passivo, sujeito às sugestões do filme, das estruturas do cinema – o “observador” por outro lado possui um papel ativo na construção de sentido da obra, não está diante de uma espécie de espetáculo fechado em si.

Na opção de usar a linguagem cinematográfica para construir um drama clássico, cuja potência é da espectação, da habilidade de conduzir um espectador, de guiá-lo com maestria pelos altos e baixos de uma história, uma maior abertura e rarefação da linguagem pode levá-lo a um caminho sem rumo. Em “Adeus à Noite” (2019), dirigido por André Techiné (“Nos années folles”, “L’Homme qu’on aimait trop”), a história parece muito falar e pouco ou nada dizer.

Neste novo longa -metragem de Techiné, Catherine Deneuve (que já trabalhou com nomes de peso do cinema como Luís Buñuel, Jaques Demy e Roman Polanski) interpreta Muriel, dona de um pequeno hipódromo e plantadora de amêndoas, a qual recebe uma visita de seu neto Alex (Kacey Mottet Klein) que em breve irá se mudar para o Canadá. Alex é um jovem traumatizado pela ausência de sua mãe, que aparentemente não apenas o abandonou, como abandonou diversos outros filhos esporádicos.

Durante esse retorno à casa de sua avó, ela descobre que Alex e sua amiga de infância Lila (Oulaya Amamra) ambos se converteram ao islamismo. Um primeiro choque cultural deixa Muriel desnorteada, e pouco depois ela descobre que Alex e Lila falsificaram cheques na conta bancária da avó do jovem para fugir com o dinheiro para a Síria. Alex, na verdade, deseja se aliar ao Estado Islâmico.

Para além das implicações representativas etnofóbicas suscitadas por essa monodimensionalidade do filme e na relação de um para um entre islamismo e terrorismo, as caracterização dramática é fraca e rasa. A religião muçulmana num primeiro momento surge como exótica e inquietante, para depois ser representada apenas por personagens que buscam se aliar ao Estado Islâmico. Um único personagem aparece como tentativa de contraste, que é Fouad (Kamel Labroudi), um ex-servente do Estado Islâmico que desertou e tenta convencer Alex a não ir. A implicação gerada é, portanto, de que inevitavelmente o islamismo conduz à radicalidade, qualquer jovem que se converta possui angústias e rancores e deseja se aliar a algum braço terrorista. Mesmo aquele que está no bom caminho – Fouad – já foi persuadido ao mau caminho antes. E só então se arrependeu.

A linguagem de “Adeus à Noite”não reflete nenhum outra possível camada de leitura. A câmera enquadra os diálogos; recorta precisamente as ações; não há cortes rápidos ou planos de longa duração; não há embaralhamento ou confusão dos sentidos na história; toda a estética está bem detida na ação dramática, a qual infelizmente, falha feio em ser o ponto de inflexão principal do filme. Sequer as qualidades técnicas fazem algo para salvar a espectação. A fotografia está resignada à corrente padronização da fotografia digital de alta definição. A trilha sonora possui apenas um único motivo pouco memorável de tom melancólico que aparece a esmo ao longo da obra. Há momentos que parece coerente o uso da trilha (mesmo em toda sua fraqueza) e momentos ela surge sem parecer remeter a nenhum ápice dramático na narrativa.

Os episódios que decorrem no filme não criam um bom jogo de expectativa ou mesmo melancolia. O investimento emocional é nulo, as ações decorrem apenas como imagens sequenciadas, e não como uma boa contação de história. Se há necessidade de um esforço do espectador para se tornar o “observador” craryano, engajado e ativo na produção de sentido, este dá de cara com uma rua sem saída, pois nada é fornecido para ampliar os sentidos e a significação da história. Esse drama rarefeito com requintes de etnofobia se revela um dramalhão pobremente pensado desde sua premissa, e apenas se mantém assim ao longo da obra.

Muriel é uma criadora de cavalos francesa que descobre que seu neto se converteu ao islamismo e quer se aliar ao Estado Islâmico. Ela o prende em casa, e depois que ele foge, chama a polícia e ele é preso. Alex é um jovem europeu rebelde que foi seduzido por uma religião exótica que lhe foi apresentada por uma amiga árabe e um amigo negro (Stéphane Bak), mas pode ser trazido de volta para o bom caminho. O filme termina em tom esperançoso, com Muriel dizendo que irá escrever uma carta para Alex enquanto um primeiro-plano se fecha na personagem, que esboça um sorriso. O leste “selvagem” não mais perturbará o ocidente europeu.

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=cErSyywgHPA

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