Abominável

A jornada ao desconhecido com amigos improváveis

Por Fabricio Duque

A nova animação da Dreamworks, “Abominável”, dos mesmos produtores de “Como Treinar um Dragão”, é um filme essencialmente voltado à família, por buscar a conservação dos valores morais em uma estrutura maniqueísta e binária. O espectador é conduzido muito mais pela emoção sensibilizada que pelo humor espirituoso. Na verdade, nesta fábula-parábola, a graça é apresentada de forma infantilizada, nivelada ao pastelão óbvio para conversar melhor com as crianças e permanecer equilibrado com suas inocência e ingenuidade.

“Abominável” é também sobre a reconfiguração da ideia de família “ajudada” pelo Universo, obrigando nossa protagonista chinesa Yi a embarcar em uma jornada de conhecimento ao desconhecido e a sua cura pela perda do pai. Quando se diz que a experiência é binária, é porque há certa limitação em definir gêneros e expandir possibilidades do existir. Ainda que as amizades sejam tão improváveis. De um lado com a “criatura-monstro-mágica do monte Evereste” (e seu “dom de falar com a natureza” – um Yeti), que inevitavelmente nos faz referenciar ao filme “E.T., O Extraterrestre”, e ou “O Bom Gigante Amigo”, ambos de Steven Spielberg, o diretor por trás da Dreamworks, pela jornada-sobrevivência para voltar ao intimista seio familiar no topo de uma montanha no Himalaia. Do outro com seu vizinho “fútil”, que só se preocupa com a imagem, mas que é levado a redefinir suas prioridades.

O longa-metragem desenvolve sua narrativa por animação computadorizada, por câmera subjetiva e por condicionados gatilhos comuns e palatáveis ao público infantil (ofensas suavizadas, jogos de tensão, “banho de perfume” e “cheiro de lixo”) entre espionagem e caça ao “diferente que não é entendido” e que serve para aumentar a conta bancária de maus-caráter (mascarados de bom moço). E ou ensinamentos dos mais velhos: sua avó diz que sua “netinha precisa comer para não ficar baixinha como sua mãe”.

“Abominável” é sobre lidar com mudanças e com humores de transição da idade (e seus “lances”). É sobre aprender a aceitar a solidão, a transmutando da defesa tímida ao compartilhamento de novos amigos. Yi “corre e corre” em seu dia-a-dia para cumprir a missão de seu sonho. Para isso, abandona a família. Uma visita inesperada chacoalha completamente sua vida. É uma odisseia filosófica. De se “jogar no abismo” do mundo para comprovar a necessidade do voltar ao verdadeiro lar. “Estrelas são ancestrais e protegem a gente”, dizem, repetindo o que ouviram em suas famílias.

Sim, o filme está mais preocupado em agradar seu público alvo: os pequenos. Mas para continuar, é preciso que se abra um parênteses, a fim de apresentar a sessão a qual esse filme foi assistido. O dia, quinta-feira. O horário, dezessete e meia. Na plateia, este crítico que vos fala e mais uma família composta de pai, mãe e três crianças. Exatamente. O mesmo pensamento que passa por toda e qualquer mente: esses filhotes, o target objetivado, são o termômetro do resultado final da animação em questão aqui. Pois é, não havia quem desse jeito na hiperatividade deles, dessa geração Ritalina-Corticoide. A medição é importante e relevante à crítica. A resposta talvez venha da opção de se nivelar por baixo, acreditando que o público mirim não “entende” as entrelinhas perspicazes. Ledo engano, até porque eles convivem com os desenhos politicamente incorretos do Cartoon Network.

Outro ponto destoante de “Abominável” é sua dublagem. Nada contra a arte de abrasileirar a linguagem emissora. Pelo contrário. Nunca se conseguiria ver “Toy Story” e “South Park” da mesma forma. Mas aqui nós embarcamos em um experiência no mínimo preguiçosa. Os diálogos, sem apuro humanizado. É técnico, frio, robótico, lido, sem emoção real, distante e ensaiado demais. Não há naturalidade. Na verdade, é transbordado uma potencialização do anti-naturalismo, que é aprofundado em raríssimas excessões com a humanização das expressões faciais e com as apresentações etéreas de violino (que inferem à melodia-tema de “Titanic”, de James Cameron) para “fazer o outro se sentir melhor”.

O filme acontece pela magia “unicórnio”  e pela iluminação neon artificial da cidade, que lembra a viagem-imaginação de “Onde Vivem os Monstros”, de Spike Jonze, que podemos ir além e incluir uma versão maléfica da personagem Disney “Valente”. Aos poucos, cada um vai deixando os sonhos. Ao invés de colecionar, vive intensamente seus momentos e suas reviravoltas, como os “bebês-tênis que amadureceram”. É o gostinho da liberdade, da descoberta, de poder andar pelas próprias pernas e sentir o poder interno. Perdem o “medo de pular” e a “delirar”. É terapêutico, catártico, desafiador, intenso e obrigatório. Essa peregrinação remete à animação “A Origem dos Guardiões”, também integrante da Dreamworks. “O peixe carpa é o símbolo da perseverança, nunca desistem do caminho”, diz.

“Abominável” é um exemplo ficcional de auto-ajuda para crianças. Que serve como parâmetro que molda o caráter. Que ensina e define o que é o certo, o errado e que é possível “consertar as coisas”. Que a trajetória já está escrita e fotografada. Tudo embalado com a música “Fix You”, do grupo Coldplay. O filme prova seu ponto de vista e sua mensagem, mas o excesso de sentimentalismo e de melodrama atrapalha a simplicidade da própria construção. Assim, deixamos a China para sentir uma sensação importada de algum bairro temática em algum lugar de algum país.

 

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