A Verdade Interior

Racionalismo, forma e discurso

Por Vitor Velloso

Durante o Festival Ecrã 2020

Onde a dialética perde de vista o materialismo ausente em Heráclito, “Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio”, parte do debate se perde nessa convicção do ser e a História vira palco de racionalismo canhestro acerca de um processo maior, interior, que compreende em si um ideal pouco sólido, porém pragmático. 

Não é difícil encontrar parte dessa vertente vulgar de “processo” em James Benning. Uma questão propriamente burguesa, onde situa o pensamento nesse ínterim de modificações para além da materialidade, do processo econômico, social e político. O centro de um pensamento como parte desse racionalismo, logo, uma espécie de constatação do pensamento como devir de um conhecimento, produto. O idealismo, propagado às quatro arestas do pensamento cinematográfico, é a síntese desse pensamento burguês em crise de consciência de classe, onde a estética deve se tornar o ponto de inércia desse embate constante que o mundo se encontra. O experimental encontra essa “Verdade Interior”, um lugar onde o indivíduo se torna real, fora de um espaço concreto, uma terceirização do discurso, onde o método se desloca esse ponto cinematográfico, dando lugar ao estoicismo. 

Sofía Brito parece ter consciência dos entraves de sua obra, admite constantemente que não sabe qual o resultado, mas admite suas “falhas” e o “processo” como algo mais importante, maior. A moral católica encontra a inércia perfeita, o debate transcultural de uma verdade interior, explícita pela imagem inócua, onde metáforas tolas sobre “rios”, “movimento” e “natureza” se estendem à perder de vista. E quando se propõe o senso de “justiça” de Benning, para além do que o mesmo compreende como uma “desigualdade”, fica claro o pensamento burguês. É a velha tentativa de se aproximar a natureza da realidade, do embate, da consciência, da sociedade, uma tentativa diversas vezes dada como vulgar por Lukács. A verve humanista-naturalista de concepção sociológica, encontra seus entraves ainda no discurso, na forma, onde acredita resolver a partir do axioma do “si”, mas que encurrala a própria tentativa de debate, pois se propõe ao pragmatismo da burguesia, dada como finita pela própria estrutura do capital”.

“A Verdade Interior” tenta assumir esse tom de “processo” por uma aceitação do pragmatismo do discurso, por reconhecer ali um jogo de perguntas a serem feitas durante a feitura da obra, ou seja, compreende em si uma estrutura que, em tese, desafia a forma como pensamento e discurso, quando na verdade, apenas expõe o problema da tentativa de dissolução de temas inerentes à realidade material. James Benning chegou à saturação do discurso, deu lugar à forma, meio mundo foi aplaudir. É a burguesia tentando tomar de assalto o lugar da contra-revolução cultural, é o formalismo em sua síntese de pensamento científico e humanista. Aqui cabe dizer o óbvio, o humanismo não é problemático enquanto pensamento, Marx vai explicitar o mesmo, o problema é essa tentativa de assimilação da natureza e da sociedade, sem reconhecer aqui os processos econômicos e políticos que estão em jogo.

E é mais que óbvio que o lugar de produção cabe no debate desses “processos”, onde esse racionalismo (in)consciente se perde para essa “liberdade” da forma. Ou podemos imaginar então que essa abordagem é comum em um processo cultural de estancamento econômico, ou seja, no subdesenvolvimento? Onde o capitalismo se completa, dando lugar à indústria e à relativização natureza x sociedade, a osmose se faz presente, a forma assume seu lugar de contracepção dialética, se compreende em torno desse naturalismo do devir racional e aplaude as tentativas de desarticulação da linguagem enquanto processo político econômico. Essa ideia formal, internacionalista, chegou ao fim estético em Brakhage, que compreendeu a imagem como o elo consciente desses diferentes processos econômicos. Mas enquanto Brakhage não lutava a partir dessas forças, ele as utilizava como manifestação, onde a política e a cultura não era anulada nesse “processo”, ora, “Dog Star Man” é o ápice dessa consciência. 

Benning faz o inverso, acredita que inverter essa ordem de pensamento o levará ao processo de forma mais natural que a dialética inerente à imagem. Sofía apenas segue o pensamento como dogma do “mestre” experimental. E para além da importância inevitável de Benning para o cinema experimental contemporâneo, cabe a revisão crítica de seus admiradores, para que as coisas sejam postas em cheque, ou, estaremos apenas aplaudindo o racionalismo formal do cinema, mais uma vez.

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