A Última Imagem

Perseguindo um processo

Por Vitor Velloso

Durante Festival Ecrã 2021

“A Última Imagem” de Benedito Ferreira é um documentário-processo que parte de sua própria procura por um filme como motor da obra, revelando os dispositivos que falseiam parte das imagens, sem deixar claro o que dali é ou não encenado. Em boa parte do funcionamento, isso não é relevante, o que conta mesmo é a amizade entre os dois Beneditos e como a curiosidade pelo cotidiano, um do outro vai formando um filme.

Não existe particularmente nada a ser discutido, debatido etc. Mas o processo que deu origem ao que estamos vendo na tela. Por essa razão, o longa não parece se encontrar na montagem, ele vai costurando algumas coisas, vendo o que cabe, assumindo suas tentativas e falhas, expondo algumas gafes durante a produção, mas aparentemente o barato é estar na França, gravando algumas imagens de um personagem que tem pouco espaço em falas. A impressão que dá é que “A Última Imagem” é como um projeto que deu errado e Benedito, o cineasta, gostaria de fazer algo sobre sua tentativa, mas acabou tentando encontrar poesia em alguns de seus recortes para construir algum lirismo diante do material.

O resultado é uma profunda lentidão na montagem, onde a cada nova situação, o espectador é convidado a mais uma tentativa de encontrar o propósito, junto com o filme, daquelas imagens. Para a sorte de ambos, o protagonista possui um carisma particular que consegue manter o público minimamente interessado nas coisas que acontecem na tela, ainda que para isso tenhamos que acompanhar algumas coisas embaraçosas, como uma tentativa de encenar uma queda de amendoim no chão do apartamento. Alguns trechos como esse desanimam e fragilizam a experiência, já que a “honestidade” com o processo ao revelar os áudios trocados etc, se torna uma tentativa de criar uma nova dimensão ali. Está certo que aqui a permanência dessas imagens, mostram que as falhas estão ali propositalmente, mas… é só o que há?

As coisas são tão soltas que vão perdendo a clareza, em determinado momento já nem lembramos mais como o filme começou e o que exatamente estamos fazendo ali, na França. Nada é dito, nem a motivação, nem a história, nada. É como o “Passaporte Húngaro” de Kogut, onde nunca entendemos o porque ela quer tirar o passaporte. Só que em “A Última Imagem” entendemos porque ele quis fazer um filme sobre aquele personagem, mas não porque estamos ali, naquela situação e por qual motivo as coisas não vão pra frente. Em um determinado momento, quando temos um depoimento de fato acontecendo, podemos escutar mais nosso personagem sem interrupções, ainda que uma parte seja na língua estrangeira. Quando o coração é aberto para o diretor, o abraço dá sentido àquilo tudo. Mas porque uma tentativa tão programática de um processo tão pessoal? Talvez o esforço para poetizar o cotidiano tenha esgarçado demais o projeto para uma mesmice europeia, que encerra com uma nota interessante, ainda que bastante usual. O ato de estar de frente para a câmera tentando unir os Beneditos em uma só imagem, é um tanto egoico.

Um pouco menos de exposição dispositiva cairia bem ao documentário que tanto persegue seu próprio tema. É claramente um esforço brutal para ser uma construção contínua que revela as meandros da produção, enquanto alguma poesia tenta ser destacada, mas acaba seguindo adiante sem motivações para o próprio espectador, que apesar de ser presenteado com um protagonista carismático, segue tentando compreender diversas questões que o longa passa por cima. Uma escolha ética duvidosa ele corrige na montagem, a visita ao pai, uma decisão importante para que “A Última Imagem” consiga chegar ao seu fim com integridade para além dessa procura incessante.

Como boa parte do cinema experimental é utilizar alguns dispositivos à exaustão ou “testar” recursos formais na prática, é compreensível a escolha para compor o Ecrã, mas tem que ter paciência para aguentar 1h10 nesse ciclo.

Trailer

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