A Última Floresta

Na ficção dos sonhos

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2021

Único representante do Brasil no Festival de Berlim 2021, o longa-metragem “A Última Floresta”, exibido na mostra Panorama, quebra as barreiras da sétima arte, apagando de vez o conceito em voga da fabulação do real quando se afasta do hibridismo típico, artifício comum na construção da cinematografia indígena. Esta, a mais recente obra do realizador Luiz Bolognesi (em seu terceiro filme após “Uma História de Amor e Fúria“, “Ex-Pajé“) é inteiramente um filme de ficção. E mais, com adjacentes camadas-narrativas ficcionais, para assim criar a ideia de um conceito. Ainda que considerado um documentário, o espectador encontra aqui uma performance de um povo Yanomami, que “tem habitado por mais de mil anos o território do Norte do Brasil e do sul da Venezuela, quinhentos anos antes desses países existirem”, esses seres da floresta “já estavam lá”. A informação nos é dada logo na primeira cartela, um preâmbulo indicativo.

“A Última Floresta” é sobre o lugar o direito. De um povo, vítima das ações do homem branco, que “veio roubar” suas vidas, suas saúdes e seus tesouros naturais. Quando se diz que este filme não é um documentário, é pelo fato de que suas personagens (reais) são guiadas pelas instruções-sugestões do diretor, que segue um roteiro, co-escrito com o indígena Davi Kopenawa Yanomami (que também participa como “ator”). Todo esse tempo observacional gera a encenação do olhar (o movimento ensaiado da pesca, do andar, do se comportar perante a câmera). Uma visão estrangeira, que refaz o simbolismo antropológico com o intuito de facilitar o acesso aos não-indígenas. No popular, diríamos que é uma obra para “inglês ver”, neste caso, alemães, sem esquecer de mencionar, por exemplo, a “modernização” moralista que os “obriga” a usar roupas. E, principalmente, a crítica de que nós homens brancos, incluindo seu diretor, contribuiu, ainda que indiretamente, à inclusão de doenças nas aldeias (até mesmo o COVID-19).

Os discursos aqui representam um grito. Uma luta dos “espíritos Xamã contra a invasão dos homens brancos”. A câmera, estética e etérea, também nos conduz a uma fantasia, baseada na realidade empírica. Ora estendida. Ora acompanhando seus “atores”. Ora por frestas à moda “mosca” de Frederick Wiseman. Em “A Última Floresta”, não há improvisos, mas conseguimos encontrar a realidade em alguns momentos, como por exemplo, a cerimônia das “drogas”, todos em transe-catarse, permitindo-se entrar em contato com os espíritos e expandir seus conhecimentos; e/ou a cena em que a criança quer comer a tapioca; e/ou pelas fotos de arquivo que mostram os efeitos que os homens brancos causam na saúde dos integrantes dos povos indígenas.  Por mais que implícito, o filme também almeja o questionamento sobre o conceito de sociedade (a etimologia de sua palavra quer dizer “associação entre comuns” por fatores de coesão), termo que nasceu bem depois dos mil anos já mencionados. Sobre a padronização dos comportamentos. Tudo aqui gera inferências por ser um recorte de problematizar a ressignificação das relações humanas. O passado-ancestral dos povos indígenas está a cada dia mais distante. E seus lares “ocas” tendem à desapropriação. Erradica-se a tradição, a cultura e geografia natal, tudo por apenas uma cena: a de se mostrar a floresta pela tela de um celular. Será que ainda é possível voltar a simplicidade? Será que mudaremos a ideia da cidade de que “produtos são importantes que coisas”?   

“A Última Floresta” busca então trazer sonhos, lendas e histórias ouvidas, recontando pela reconstituição ficcional. Um conto de fadas de um povo que ainda tem esperança na paz e a utopia para ensinar o homem branco o “lugar dele”. Um ensinamento que chega a Harvard, universidade que quer ouvir a aula sobre a importância de se preservar a floresta. A música é outro elemento de elo que corrobora a ficção, trilhando suspense, perigo iminente e preparações à batalha com a potencialização dos barulhos de pássaros, vento e pegadas na mata. A cena das flechas em brancos garimpeiros que vêm “roubar a mineração” é um desses exemplos de performance. “Quando você sonha, você organiza seus pensamentos”, diz-se. A fotografia ao fundo, da estética do fogo, torna a imagem uma epifania. É o ver pela poesia. Uma metáfora da própria fantasia do real, entre “espíritos do mal”, “mulheres do mundo do mar”. “Os espíritos Xamã não curam sem um propósito”, afirma-se.

Então, depois de tudo, nós podemos embasar de que o que assistimos é subjetivamente as escolhas de seu diretor. Lógico. E ao encenar apenas listando pontos cruciais (como a mulher que ao cortar madeira por necessidade se torna “homem”), “A Última Floresta” pode soar superficial demais. A experiência que fica para o público é a de um laboratório sob lentes de aumentos de superexposição. Um olhar estrangeiro. Distante. De análise meramente ficcional. Não se sabe se o apoio do Greenpeace pode ter “adulterado” o processo e seu resultado final. Sim, concordamos que Luiz Bolognesi, por mais que entenda a floresta, sempre terá a influência da cidade no seu olhar. E mais. A influência do estrangeiro deste olhar brasileiro. Tudo isso aqui é um alimento para estimular o questionamento e o que faz de “A Última Floresta” uma obra de reflexão extracampo. Que transcende definições e povos.

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