A Trilha dos Ratos

Aquela história, de novo

Por Vitor Velloso

Durante a CineOP 2021

“A Trilha dos Ratos” de Marcelo Felipe Sampaio é um daqueles filmes que gera algum tipo de comentário nos grupos de aplicativo, nos “antigos” encontros de bar e em algum jantar munido de pouco assunto à vista. Não que a temática central não seja interessante, longe disso, mas a estrutura da abordagem e linguagem utilizada parte de um tom sensacionalista para uma história que, se for verdade, escancara a contribuição direta do fascismo latino com a fuga dos nazistas no pós-guerra. Está claro que parte dessas relações políticas com a Alemanha de Hitler, e/ou remanescentes dela, já foram documentadas (o próprio Stroessner é uma figura que surge constantemente em diversos documentários que expõem o fracasso moral, e institucional, do exército brasileiro) e debatidas.

Porém, muitas informações de “A Trilha dos Ratos” acabam sendo pouco embasadas, surgindo em relatos tão distantes e conspiracionistas assumidos, que é difícil crer na veracidade de todas essas informações. Além disso, a divisão capitular com os inserts faz com que o longa soe como um vídeo espetaculoso de algum canal dessas plataformas de vídeo. Mas a falta de um rigor crítico nas próprias informações é o que mais pesa nessa construção, pois essa ausência de uma análise mais profunda das consequências disso para uma compreensão moral e política do que representaram as ditaduras latinas, transforma tudo isso em um pequeno grau de curiosidade, sem levar em conta que parte dessas atitudes não foram apenas ocultas de um cenário midiático internacional (seja por imposição do silêncio ou conivência) como é a síntese máxima de um movimento imperialista com o denominador comum no que tange o “inimigo”. E quando o documentário toca nesse ponto, não cria um diagnóstico que seja capaz de dar conta da seriedade disso. 

O que gera estranheza é o fato do filme assumir um caráter expositivo de maneira explícita (reforçando o nome de cada um dos personagens toda vez que eles aparecem em tela), mas recusar a exposição de maneira mais didática quanto às próprias figuras. Fica claro que “A Trilha dos Ratos” é um projeto parcial de algum tipo de exibição em torno de curiosidades, onde essa linguagem escancara textos e inserções o tempo todo e implora pela sua atenção aos “fatos”. É o sensacionalismo televisivo e da internet, encontrando um bom meio cinematográfico para angariar adeptos. Não por acaso a própria resolução do projeto parece inconclusiva, passa a recortar alguns depoimentos de pessoas que conheceram alguns dos nazistas que residiram por aqui, em Serra Negra, interior de SP, e permanece nesta tecla até o fim. Aqui, durante o platô da “falta de assunto” e/ou provas para embasar algumas das discussões, um psicólogo discursa sobre a possibilidade dessas pessoas, em especial Mengele, serem psicopatas. Acaba fazendo graça ao chamar de Zé Ruela, o que até é uma saída menos pirotécnica, mas expõe que parte desse interesse pela história, vem de um certo fetiche por essas narrativas de violência e sadismo. Não por acaso, o momento citado é introduzido de maneira conjunta com as descrições das perversidades que Mengele cometeu. Quando não de como ele era visto pela população local. 

O documentário é frágil, mas isso não seria um problema tão expressivo se sua linguagem não buscasse esse sensacionalismo em torno de uma temática tão grave e que revela (ou reforça) os problemas que as ditaduras latinas enfrentaram com seus supostos “aliados” from America. Para citar um cineasta dessas bandas que também utiliza informações como dados e cria algumas suposições para tentar instigar o espectador, é o Michael Moore. Só que suas fragilidades não partem desse fetiche velado, sim de canastrice explícita. 

“A Trilha dos Ratos” cria uma dimensão de “soluções encontradas”, “fatos expostos” e “provas”, mas não consegue passar muito de um episódio elaborado do Fatos Desconhecidos com uma narração meio “Meteoro”. Se fosse um pouco mais incisivo sobre as instituições citadas, como a própria Igreja Católica, e uma abordagem que fosse mais crítica com essas informações, já passavam uma credibilidade maior. De toda forma, fica algumas curiosidades para aqueles que engrandecem a imagem dos Perón. 

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