A Princesa e O Plebeu

Uma ode ao romantismo

Por Laisa Lima

Considerar a Era de Ouro de Hollywood como principal fonte de admiração fez com que eu percebesse a gigante diferença entre os filmes da atualidade, e os daqueles tempos, incutidos em mim desde os 5 anos, tendo em “Os 10 Mandamentos (1956), de Cecil B. DeMille; principal influenciador. Entretanto, sair um pouco do vazio de algumas obras atuais utilizadas apenas para a transmissão de mensagens vazias por meio de genéricas narrativas de conteúdo precário, tais como em “Como Perder um Homem em 10 dias”, de Donald Petrie, e condensar todas as características que levaram ao meu fascínio pela era dourada, não foi fácil, mas, por sorte e sem nenhuma intenção, encontrei toda a magia necessária que traduz perfeitamente o motivo de minha fixação em “A Princesa e O Plebeu” (1953), de William Wyler.

Em uma época ainda assolada pela censura do Código Hays, de ascensão dos musicais, dos grandes estúdios e dos símbolos do cinema, os filmes de “escapismo” se tornaram uma potência em Hollywood. Sobre “A Princesa e O Plebeu”, pode-se dizer que a obra segue e não segue este sistema. Possuindo um caráter de conto de fadas e prezando, sim, pelo entretenimento consumido pelo grande público, é contada a história da princesa Ann, que, cansada do dia a dia de realeza, foge pelas ruas de Roma, encontrando Joe, jornalista que a ajuda, mas com a intenção de fazer uma reportagem sobre sua fuga, e, consequentemente, manda-la de volta para o palácio. Seguindo a lógica das comédias românticas – estilo no qual a obra é enquadrada – esta é uma trama genérica e que, se construída com normalidade, nada tem a dizer. Por felicidade, William Wyler mudou esta concepção.

Ao ter Audrey Hepburn no papel que a lançou ao estrelato, Gregory Peck, já conhecido, interpretando Joe, e o diretor de Ben Hur (1953), William Wyler; é possível, levando em conta os trabalhos prévios destes artistas, imaginar que a trama alçaria muito mais do que uma simples comédia romântica. Aqui, a sensibilidade trabalhada em forma de uma singularidade na visão de acontecimentos cotidianos, e a pureza transparecida por meio da inocência da premissa, são expressos, também, na maneira como foram manejados os sentimentos, e as mudanças de ideias e ideais dos personagens. Exercido com simplicidade e sem a necessidade de espetaculosos efeitos ou de momentos de extrema dramaticidade, o filme, porém, apresenta um “toque” dramático, visto a dualidade moral presente nos pensamentos de Joe em relação à dúvida sobre a possível entrega da matéria requerida pelo trabalho, e visto a ambiguidade nos posicionamentos de Ann, que precisa decidir se deixa ou não seu trono, se conta ou não sua verdadeira identidade para o jornalista, e se consegue ou não, sustentar a vida convencional. Além do drama, o longa – metragem percorre outros gêneros, incluindo momentos pontuais de comédia, além de apresentar uma sucessão de acontecimentos que corroboram, naturalmente, para a quebra das barreiras sociais entre os protagonistas, florescendo, então, uma talvez já esperada relação.

Como é um traço característico das comédias românticas, “A Princesa e O Plebeu” não foge da previsibilidade. Alguns passos dados pelos protagonistas podem ser facilmente antecipados por um espectador conhecedor de histórias de amor, mas que, apesar disso, pode ser cativado pelo jeito com que o enredo é contado, e os ocorridos, descritos, incluindo até os mais corriqueiros, como quando Ann experimenta um sorvete. A singeleza de uma trama pouco complexa, exposta também nos diálogos simples, é percebida de forma rápida, sem margem para possíveis questionamentos, fato reforçado pelo fácil entendimento da personalidade característica e identificável dos personagens, tendo na princesa fora do arquétipo de menina vulnerável já divulgada pelas princesas da Disney, uma mulher corajosa, mas um tanto confusa; e em Joe, um homem rude, mas questionador dos valores presentes em suas ações. Mediante o ritmo de causalidade frequente, na qual situações normais fazem surgir um sentimento entre os dois, principalmente enquanto Joe apresenta Roma para Ann, tudo é feito de forma paciente, gradual e nada forçada, tornando o afeto entre o casal um agente propulsor da mudança de ambos, assim esperado pelos admiradores de comédias românticas que, como em um bom conto de amor, almejam a felicidade do casal.

Os artistas envolvidos na obra, como os descritos acima, oferecem para a falta de realidade presente na ideia central do filme, a verdade necessária em outros âmbitos. O casal, interpretado por Audrey e Gregory, possui um entrosamento genuíno, manifestando-se na tátil e crescente intimidade exercida pelos dois conforme o decorrer de sua convivência, não anulando as individualidades de cada um, mas, ainda sim, demonstrando uma conexão feita a partir de uma afinidade pouco provável, mas desenvolvida pela obra com fluidez. Como artimanha para a aderência e consequente realização do público para com o destino dos personagens, a aura de sonho vivida por Ann, devido a sua recente e pouco acreditada liberdade, transcende para outros momentos, como o da dança entre o casal em um barco, sendo, assim, um momento considerado de “escape”, visto a passagem da essência romântica de “A Princesa e O Plebeu”. Para maior ênfase da atmosfera sensível, o diretor, Wyler, por sua vez, dá espaço à força dos sentimentos, sejam eles exibidos em planos fechados com objetivo de exaltar a feição dos atores, seja ele ressaltando um necessário elemento à parte: Roma.

O encantamento sentido por Ann ao desbravar Roma conecta-se a uma sensação mútua de exploração, empregando ao público, uma espécie de auxiliares de suas descobertas, que, assim como em outros momentos passados pela princesa que revelam sua falta de mundanidade (ressaltado desde sua saída do palácio, quando adormece na rua) nos é mostrado, novamente, a simpleza dos aspectos que o filme dedica mais atenção, não investindo em ocorridos com intuito de um extremo choque ou de total saída do factual, e sim na anexação emocional dos espectadores mediante o aguçamento da empatia. Tendo a previsibilidade como um fator utilizado, este artificio não é exposto de maneira pouco apurada, levando em consideração seu uso em volta de uma simplória cena, como a de Joe e Ann em uma moto, como exemplo, na qual a imagem e a trilha sonora, tornam a ocasião, única para os dois.

Ao contrário de filmes conhecidos como “água com açúcar” – sinônimos de pouca qualidade, dito por alguns –  como “A Barraca do Beijo”, de Vince Marcello, “A Princesa e O Plebeu” nunca peca pelo sentimentalismo, nem pelo excesso de uma atmosfera de conto de fadas, já que o mesmo ainda possui elementos modernos, como o destino final da princesa; utilizando, a todo tempo, cenas (em um charmoso preto e branco) de uma estética suave, que valoriza o ambiente, seus detalhes, e seus consequentes componentes, salientando também todo seu entorno: um pano de fundo com uma fábula delicada, sem maiores invencionices e ideias mirabolantes, e cheia de uma diversão que procura transportar o espectador, por meio de sua imaginação advinda das sensações passadas pela obra, para um mundo vivido de forma leve, fazendo até das adversidades, experiências sutis. O que a obra oferece, portanto, é o objetivo que qualquer uma pretende alcançar, mas, a maioria, não tem essa capacidade: a de trazer magia tanto à realidade, quanto ao cinema.

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