A Praia do Fim do Mundo

Entre cósmico e gótico

Por Ciro Araujo

Durante o Festival Cine Ceará 2021

A Praia do Fim do Mundo

Seja o que quiser, a tendência atual vista pelo mercado de horror é de uma possibilidade de assimilações de gênero e dinâmicas visuais absorventes. O tal do “autoral”. Todo mundo anda experimentando e inclusive se aproveitando disso. Em “A Praia do Fim do Mundo”, Petrus Cariry decide mergulhar na construção de mundo e um interesse pelo montar visual, mesmo que interligado pela realidade e por uma quase não-ficção. Vilas abandonadas, o mar, o chamado “fim do mundo”, um interesse pela construção do mito, talassofobia itinerante, são pontos chaves para se entender o novo longa-metragem do cineasta.

Facilmente inspirado por não só tendências contemporâneas, Petrus decide ir além. “O Visitante do Museu”, do gênio do apocalipse, Konstantin Lopushansky, é uma óbvia escolha de inspiração do filme em preto e branco. A dramatização, que em “A Praia do Fim do Mundo” é uma escolha talvez menos ficcional, isto é, puxando até demais a ficção científica, reflete na realidade um tom tão perto do natural. Assim, enquanto na produção do soviético o claro foco está na construção de um mundo assustador, o brasileiro decide bancar uma dinâmica entre mãe e filha em um impasse. Mais pé no chão, alguns diriam. A atmosfera de ambos, entretanto, se ligam tranquilamente em um piscar de olhos, seja pela obsessão do mar e seus mitos, que engolem estruturas que outrora jaziam em pé. Talvez daí saiam interesses pelos mitos, ou algo que não existe.

Um horror cósmico? Pode ser, sempre surgem novos para o gênero no cinema moderno. Mas talvez… um horror gótico? Algo perto de Edgar Allan Poe, quando escreveu seu último poema, “Annabel Lee”. Este, definitivamente bem mais romântico que “A Praia do Fim do Mundo”, possui o mesmo olhar sobre o mundo marinho. Quisá a humanidade tenha um apreço tão forte pelo desconhecido que é muito fácil quando tão pouco explorado. Seja assim, Cariry também entende essa sensação e deseja bastante filmar as estruturas deglutidas. Se já não bastasse o aproveitamento incrível do diretor, completa-se com uma trilha sonora sintética, de João Victor Barroso, tão ideal. Remetendo novamente ao filme de Lopushansky, talvez ambos carreguem em sua sina uma lentidão tão certeira, necessária, como a maré do oceano. Entretanto, cabe à obra analisada agora uma didática rítmica melhor. Um remendo, uma errata ao anterior, como se Petrus já tivesse um plano combinado para produzir obra superior.

É difícil repassar por tanto interesse pelo cosmos do filme e não se perder, afinal. Claro, diante do próprio corpo da sensação, do progresso fílmico, existem atrizes que entregam diálogos simples. Claro, fogem da estética realística tão obcecada pelo olhar atual, e sem problema algum ele (o filme) se compreende como tal. Acontecimentos são reagidos como naturais, sem espanto ou aquele algo a mais, um pedido de paciência da própria construção da linha do tempo do longa-metragem. A partir disso, insere-se então o tão batido comentário a respeito de Hollywood, que vira e mexe gostam de metralhar o público com a pulsão do plot extenso. Aqueles que se interessam pelo cinema sensorial, tem enfim um candidato para assistir, que também se afirma como uma produção cheia de marcas próprias.

Muitos compararão com “O Farol”, de Robert Eggers, e com razão. O flerte ao gênero que Cariry têm é tão grande que faz isso, também a se lembrar de um dueto de atrizes que se completam, uma velha e jovem, com pensamentos inversos. Salvo a estética do preto e branco, a proporção de vídeo e outros apetrechos e dispositivos (o mar, claro). De todo modo, é bem claro os interesses visuais do filme e há de se elogiar, pois a entrega é totalmente de acordo com a mistura sinergética do cósmico e gótico de anteriormente. Um filhote do mistério, talvez, ou para aqueles mais pedantes que, a propósito, vem desaparecendo cada vez mais, chamariam o tal de “pós-horror” ou “pós-terror”. Além de seu peso dramático, óbvio; Não, ele não se encontra em um pós, então. Está mais inserido logo no gênero, bem dentro dele mesmo. Ponto para Petrus que soube administrar perfeitamente o ritmo para além do óbvio, tanto pelo enquadro da câmera quanto para toda a textura produzida que ele próprio cria, assinando como seu próprio diretor de fotografia.

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