Mostra Um Curta Por Diq mes 13

A Portas Fechadas

A responsabilidade de uma reunião

Por Pedro Sales

Durante o Festival Olhar de Cinema 2023

A Portas Fechadas

Em 13 de dezembro de 1968, o Brasil experimentou o início de seu momento de menor liberdade política, quando o governo do presidente Costa e Silva decretou o Ato Institucional 5 (AI-5). O documento atribuiu ao líder do Executivo o poder de fechar o Congresso Nacional e Assembleias Legislativas, institucionalizou a tortura, suspendeu o habeas corpus em casos de crimes políticos, censurou a imprensa e as artes, entre outras medidas. As várias violações constitucionais sacramentaram o que todos já sabiam: o Brasil estava sob uma Ditadura. Com esse contexto histórico, o diretor João Pedro Bim realiza um documentário focado nos bastidores da aprovação do decreto. “A Portas Fechadas”, desse modo, por meio de um extenso trabalho de pesquisa, expõe a reunião que culminou na assinatura do AI-5. Entre alguns políticos mais receosos e outros favoráveis às violações, uma constante foi o reconhecimento da responsabilidade de que tudo mudaria.

Ao longo da obra, existe um choque bastante palpável na forma em que alguns aceitam de bom grado as intervenções de Costa e Silva. O então Ministro da Agricultura Ivo Arzua, apesar de ter votado a favor mas com ressalvas, declarou que o Ato teria a capacidade de “conduzir a nação aos seus gloriosos destinos”. Rademaker e outras figuras como Médici acataram e glorificaram sem ressalva alguma. Pedro Aleixo, o único voto vencido, foi o primeiro a afirmar a deflagração de uma ditadura e eliminação da Constituição. Portanto, a narrativa se desenvolve em torno da reunião. O diretor explora, assim, as contradições dos ministros e o relativismo advindo do temor nas justificativas. Embora reconheçam o estabelecimento de uma ditadura, ninguém teria coragem de se colocar na frente dos interesses de Costa e Silva. Ou seja, por meio de malabarismos ideológicos sob o pretexto de impedir a subversão, muitos deles cederam e ajudaram a instituir o pior período que o país enfrentou na história recente.

Apesar de um claro foco narrativo na reunião da assinatura do AI-5, “A Portas Fechadas” não se restringe a este aspecto da Ditadura Militar. A obra insere filmetes, propagandas e cinejornais do período, que estabelecem um contraponto ao áudio. Algumas vezes as imagens corroboram para o discurso, em outras apenas ilustra o tempo histórico, como quando mostra trapezistas e pessoas nas ruas. Um exemplo da presença da propaganda é a cena em que um filho pergunta: “Pai, o que é nacionalismo?”. O trecho deste filme institucional, realizado pela Agência Nacional em 1976, assim como a presença de vários outros, demonstra que o aparato de mídia da Ditadura era quase uma extensão do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), de Vargas. Aliás, torna-se evidente que o mecanismo utilizado pelo país era tão incisivo, feroz e deturpado quanto as propagandas de regimes autoritários, inclusive o stalinista, que os militares tanto criticavam e temiam que criasse raízes no Brasil.

Dessa forma, a montagem de Bruna Carvalho engrandece todo o visível esforço de pesquisa do longa, ao combinar o eixo central da reunião à propaganda da Ditadura. Grande parte das imagens utilizadas no filme são do Arquivo Nacional. Entre digitalizações, restaurações e conversas com os funcionários do órgão, o resultado final transporta o espectador a essa época. O desafio em “encaixar” tantos arquivos ganha contornos de maior autorismo a partir do momento em que a montagem se torna um recurso discursivo para pontuar as expressões faciais de quem viveu aquela época. O congelamento das cenas, quase sempre quando alguém olha para a câmera, demonstra, de certa forma, um desconforto diante das gravações e do aparato de propaganda do Estado. Além desses eventuais congelamentos, a montagem articula frequentemente uma ironia. Enquanto boletins de rádio dizem temer a subversão, o rolo de um filme não veiculado com os antecedentes de 1964 é um contraste claro à suposta “ameaça comunista”, revelando que a organização não passava de um mero encontro sindical.

Mesmo com essa condução enérgica e criativa que tenta conciliar os assuntos, “A Portas Fechadas” sofre em alguns momentos com a dificuldade em estabelecer um direcionamento só. A reunião da assinatura do AI-5, por mais que seja o elemento narrativo central da obra, muitas vezes acaba sendo obscurecida pelos arquivos, propagandas e gravações para rádio. Ou seja, quando Bim retoma a fala de algum dos ministros isso se dá de maneira abrupta. A escolha dos arquivos também passa por essa amplitude temática que quase desorienta. Alguns mais óbvios como o já citado filme do nacionalismo, do cata-vento verde amarelo e Dia da Independência fazem parte de uma “educação moral e cívica” dos cidadãos brasileiros. A propaganda da Amazônia, por outro lado, está mais voltada às práticas econômicas do período, quando o orgulho do desmate era justificado como a “Magia do Desenvolvimento”. Esses ruídos não chegam a atrapalhar a rodagem, mas incomodam pelos claros “saltos” temáticos.

“A Portas Fechadas” é um filme interessado em se infiltrar em um dos momentos mais primordiais da política brasileira do século XX. A importância histórica e política deste resgate em forma de filme – uso esse termo porque o trabalho de pesquisa e recuperação de arquivos junto ao Arquivo Nacional é um verdadeiro resgate – é evidente. A iniciativa do diretor de trazer às telas as vozes reprimidas e triunfantes que atestam o surgimento irrevogável de uma ditadura por meio do AI-5 também adquire outra visão ao se inserir a propaganda do período. Apesar de faltar certa organicidade na transição entre os dois assuntos, é nítido como um é complemento do outro. Como enganar uma nação e negar a existência de uma ditadura? Do mesmo jeito que todos outros regimes totalitários fizeram e fazem: por meio da propaganda. Portanto, este é um longa que não se omite no discurso, aponta, mostra e dá nome aos bois, a todos eles.

3 Nota do Crítico 5 1

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