Mostra Um Curta Por Diq mes 13

A Pequena Sereia

Lá, eles andam com alegria?

Por Fabricio Duque

A Pequena Sereia

Alguns filmes são muito mais simbólicos que outros, tudo por causa de nossas memórias afetivas. Essas obras trazem uma genuína  e orgânica pessoalidade da lembrança, que nos recupera uma nostálgica sensação do passado, podendo soar como uma proteção ao hoje, visto que o antes não gera surpresas, tampouco dúvidas, porque já foi vivido. Resgatar isso nos acalenta e nos relaxa. Nesse flashback, é só sentar, assistir de novo e reviver os mesmos sentimentos. É. E quando sabemos que um filme que nos marcou muito ganhará uma nova versão, então nós somos acometidos por uma ansiedade. Um de medo do que esperar. Será bom ou decepcionante? Pois é, acho que deveria ser proibido refazer cinematografias antigas. O caso da vez vem da Disney. Em especial, “A Pequena Sereia” (2023), que agora ganha versão live-action da icônica animação do final dos anos oitenta (1989). 

Neste momento, antes de analisar a nova versão, eu preciso fazer um parênteses e contar uma história pessoal. “A Pequena Sereia” marcou muito minha infância, porque foi a primeira fita VHS que ganhei de aniversário da minha avó. Só que o filme chegou antes e aparelho de vídeo-cassete apenas meses depois. Sim, era assim mesmo. As compras demoravam a chegar. Então, quando o produto finalmente chegou, eu fiquei assistindo a fita quase de forma ininterrupta. Ah, e era dublada em português. Por isso, que quando soube de que uma nova versão seria feita, fiquei com medo. De uma possível decepção de rememorar minhas sensações da infância. E também de um possível gostar mais dessa nova versão e assim ressignificar todo meu olhar subjetivo sobre meu passado. E por isso que congelei, desejando ser apenas uma ideia errônea de seus produtores. Mas não era. Até porque a indústria cinematográfica não é pautada por emoções e sim pelo dinheiro. E assim, meses depois de estrear nos cinemas, o filme chega ao streaming da Disney Plus. E talvez neste momento estivesse preparado para enfrentar meu medo, como uma terapia cognitiva de choque catártico. Então, vamos lá!

O primeiro detalhe que observamos na nova versão de “A Pequena Sereia” não é sua forma, a de transformar a animação em realidade ficcional (ainda que em muitas cenas a sensação que temos é de assistir uma versão de um jogo moderno, em que se percebe os efeitos da inteligência artificial), e sim a de que o mundo mudou, que agora o cinema se preocupa muito mais com a questão-tendência da inclusão social e que “aceitou” a missão de “consertar” todas as ofensas estruturais do passado. A protagonista Ariel agora é negra (Halle Bailey, que já foi atriz do filme “Homecoming: A Film by Beyoncé“). O Rei dos Sete Mares é latino (Javier Bardem). A Rainha da Terra (Reino Unido) é negra. O Príncipe é adotado (Jonah Hauer-King). Mas isso tudo não incomoda o espectador, pelo contrário. O problema talvez esteja na robotização padronizada das reações interpretativas de seus atores, construindo uma narrativa de efeito (e de evento hype), como se fosse um grande clipe da Beyoncé. Sim, é inevitável não comparamos as duas versões. A animação possuía uma proteção a mais: a de soar uma fantasia, uma utopia de nosso querer mais íntimo, e permissivo, pelo artifício do elemento mágico. Uma parábola conto-de-fadas. E talvez por querer nos distanciar da realidade, nós conseguíamos perceber muito mais expressivas nuances de suas personagens, fazendo com que a emoção viesse de maneira mais natural. 

Já por sua vez, a nova versão de “A Pequena Sereia” segue por outra extremidade. Aqui, o mais importante é a experiência visual, de imagética viagem imersiva por sons e espaços. A interpretação em si é nivelada em segundo plano coadjuvante, “servindo” apenas do básico e do mais comum. Contudo, o realizador Rob Marshall (de “O Retorno de Mary Poppins”, “Nine”) entendeu o lugar que estava se metendo quando aceitou dirigir essa releitura, tanto que explicitamente buscou adaptar, além do filme anterior, o conto para crianças da autoria de Hans Christian Andersen. E não só isso, quis também criar tempo contemplativo dentro da ação, como os pensamentos silenciosos da personagem principal e logicamente conservar a música original. E escalar a sempre multifacetada atriz Melissa McCarthy como Úrsula, a Bruxa do Mar. Assim, todo esse “pacote” suaviza no espectador (e no diretor) a ansiedade do resultado, que pensa exclusivamente na audiência (estamos falando de estúdios, não é mesmo?). 

Outra questão que também observamos em “A Pequena Sereia” é que a Disney, assim como a Pixar, sempre evocam os mesmos temas universais para contar suas histórias. Como por exemplo, o pai “tirano” que quer proteger a filha de todos os perigos do mundo e assim a mantém “prisioneira” no “mundo dele”. A filha rebelde que quer desbravar o mundo (já vimos isso em “Valente”, “Elementos”, “Procurando Nemo”, “Os Croods”). A consequência é o esperado conflito: a filha aventura-se (inicialmente ambientada na superfície para aprofundar essa busca durante o processo de descobertas), precisando tomar medidas drásticas por não encontrar apoio em casa. Há também o afã do final feliz. Da existência perfeita, pacífica e equilibrada com a união dos povos dos mundos, sempre com a redenção, a aceitação dos erros, o perdão confortável e a eliminação-vitória dos vilões. É esse maniqueísmo característico o esperado desse público, que vai ao cinema para reencontrar a inocência perdida, ainda que utópica e dependendo do ponto de vista até destruidora, esta que vem à tona pela percepção de uma nova liberdade moralista. De tradicionais valores familiares indestrutíveis. 

Assim, depois de tudo, nós podemos concluir que a nova versão de “A Pequena Sereia” consegue atravessar a mesmice desse projetado, “falseado” e hipócrita cotidiano moderno e se mostrar como a obra cinematográfica que Hans sempre quis fazer, por agradar a gregos, troianos, produtores, audiência, mares e terras, ainda que precisa lidar (e se policiar) com todas essas mudanças culturais que agora regem o dia-a-dia comportamental de todo e qualquer ser, humano ou não, enquanto indivíduo coletivo de uma sociedade que muda de opinião como muda de roupa. Será que “lá, eles andam com alegria”?

3 Nota do Crítico 5 1

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