A Odisseia dos Tontos

Argentina segue lecionando

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2019

O cinema comercial argentino possui características específicas na produção latino-americana, não só pela sofisticação que constrói suas narrativas, que incorpora influências da TV sem ceder completamente sua forma à mesma, como também por seu vigor cômico-dramático. E neste ponto, nossos vizinhos estão muito à frente da nossa cinematografia contemporânea. Tá certo que a partir do novo cinema argentino, diversas políticas públicas permitem o avanço da sétima arte no país, porém a cultura que os mesmos desenvolveram nas últimas duas décadas vai além da etapa da produção e distribuição, atinge diretamente o consumidor, que apesar de se sentir confortável com a verve industrial de parte de seus lançamentos, possui um apreço maior por características nacionais.

Dirigido por Sebastián Borensztein (de “Um Conto Chinês“), “A Odisseia dos Tontos” busca uma condição própria da filmografia argentina, enquanto é eficiente em ampliar o púbico através do elenco e de uma narrativa que abarca a comicidade com um teor dramático próprio do diretor e de Ricardo Darin, parceiro de longa data. Adentrando em um conto repleto de absurdos, a trama não se preocupa em construir os personagens de maneira a promover um estudo acerca dos mesmos, mas foca seus esforços em utilizar de maneira clara os recursos textuais com a intenção de envolver a plateia com a história de acidentes contínuos. E o trunfo do projeto é saber conciliar suas proposições dramáticas, quase trágicas, com a comicidade inerente do material, sem ser desrespeitoso com a própria linha que pretende seguir. Com essa estratégia arquitetada as transições na dramaturgia são fluídas o suficiente para que o público não sinta um impacto tão drástico de uma para a outra.

Em questões formais “A Odisseia dos Tontos” segue um padrão mercadológico, sem fugir do simples ou do básico, a decupagem organiza uma sequência lógica de progressão narrativa e regula suas viradas com atos normativos. Sendo este outro acerto da produção, já que não perde sua vertente popular, conseguindo ser rentável ainda que proponha diferenciações claras com a indústria em alta. Além do mais, necessita de uma regionalização, para que a geografia fílmica funcione, que acrescenta muito à atmosfera, já que o contexto não é Buenos Aires, capital e vertical, é interior. Esse mapeamento se mostra funcional quando um dos personagens apresentados aparece em cena e vemos que ele mora próximo à um pântano, que se destaca gravemente da paisagem dos demais. Nesta diferenciação social, o figurino chama atenção ao ser singular para cada um dos eixos que decide investir, incluindo quando compreendemos tensões sexuais.

A fotografia é eficiente, pois não rouba o filme, mas ajuda à direção com suas expressões mais carnais no écran. A montagem que por vezes é cruzada com momentos burocráticos, com fades canhestros, auxiliada por uma música que é irregular ao longo da projeção, com momentos genuinamente divertidos, outros tenebrosos. No momento onde o espectador presencia uma batida de carro, é possível reconhecer tal quebra na trilha. Mas ainda que tais questões tenham sido expostas, as virtudes técnicas do longa são invejáveis, pois nada é grave e tudo é consciente, planejado e direcionado de maneira a funcionar como um entretenimento crível e que assume a região de sua produção.

A América latina possui cinematografias brilhantes, o eixo Argentina e Brasil não são os únicos, a Colômbia e o Uruguai sempre se destacaram neste sentido. Mas querendo, ou não, os argentinos possuem o mais maduro e concretizado de todos os mercados entre os latinos. Com sua indústria funcional e menos tóxica, além da produção independente que conta com a “El Pampero Cine” por exemplo.

“A Odisseia dos Tontos” é uma diversão garantida para diversos públicos e tem como maior mérito realizar essa aproximação de públicos com uma facilidade invejável. Pois este ponto é a maior refrega que a pseudo-indústria brasileira possui, conciliar seus espectadores, para que não haja um produto nocivo na tela, mas que possua personalidade em sua forma e discurso, sem que isso soe pretensioso ou destoante do mercado. Além do mais, não investe apenas em Darin, e sim em um elenco experiente com diversas figuras conhecidas, mas sem tratá-las com distinção por status diferentes de celebridade, como acontece em diversos longas aqui no Brasil. Não é uma surpresa, pois “Um conto chinês” já possuía uma certa legião de fãs, mas é bom ver o retorno dessa versatilidade de Borensztein.

 

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