A Matéria Noturna

O trânsito inconsciente

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

A primeira parte de “A Matéria Noturna”, de Bernard Lessa, consegue transar entre mundos imaginados, crenças e lágrimas de dores que não somos capazes de compreender. O samba tenta curar a dor e os tempos da obra passam a dialogar entre idas e vindas, memórias e descrições de uma terra. Contudo, com a progressão do filme, as coisas ficam tão deslocadas da proposta inicial, que a sensação é de perda do direcionamento.

Enquanto o longa permanece focado na história de Jaiane (Shirlene Paixão), as coisas funcionam em uma prosa melancólica, de encontros inusitados e um mundo que se desloca em meio ao caos urbano, espreitando essa tristeza com a calmaria de seus hiatos. Quando a narrativa introduz Aissa (Welket Bungué) o filme parece querer utilizar do encontro para explorar um desconhecimento nessa relação, que atravessa rapidamente a vida dos dois personagens e se estabelece na imprevisibilidade. Como sua passagem pelo Brasil é temporária, e seu retorno ao seu país natal, Moçambique, é um fato, o espectador sabe que está assistindo um romance que possui data final. Aqui, é possível começar a perceber que os tempos não são imutáveis, existe uma certa ordem que confunde as coisas aqui, pois um trauma anunciado no início da projeção, torna-se um assunto em suspensão, o que permite algumas interpretações desse retorno. Porém, “A Matéria Noturna” não consegue desenvolver seus personagens a ponto dessa relação se tornar o grande eixo central. É difícil se interessar por essa questão que se coloca o tempo todo como “perene”, nesse espaço que se mantém fixo para ambos os personagens, apesar das particularidades.

Com a falta de um propósito claro, a experiência se torna essa coisa que segue vagando por Vitória-ES, à procura de algo, como uma inquietação. Mas essa questão dos impulsos, do inconsciente, de um “magnetismo” pouco racional ou material, faz o tempo de projeção se dilatar de maneira inesperada. O barato todo fica arrastado, lento e desinteressante. A entrada de Aissa desestabiliza a narrativa e por mais que essa intenção possua uma ideia dramática sólida, não funciona bem na prática, pois essa série de deslocamentos, de divagações e corpos vagantes não consegue fugir dessa proposta de um prosaico quase programático. A contradição é justamente que o conflito formal entre o cotidiano que vibra um amor é incapaz de conceber narrativamente esse vulcanismo sentimental com a não-permanência de seus personagens em um espaço físico que se desloca na representação. Ou seja, o axioma não é resolvido e uma coisa vai anulando a outra. São vários filmes em um filme só, em situações que se deslocam propositadamente, mas sem uma ideia consolidada.

“A Matéria Noturna” parece deixar-se levar com o próprio processo criativo e sua permissividade retira o rigor formal inicialmente proposto. Essa “morte” dos primeiros momentos, não consegue ser resgatada em uma resolução que apenas retoma um ciclo sem fim. Existe aqui um movimento de desmaterialização constante, quando não de despersonalização de seus personagens, o que poderia ser um recurso interessantíssimo, aliás o título sugere esse não-lugar de um movimento incessante, mas como isso nunca se concretiza, temos uma obra perdida que não sabe para onde ir e nem como chegou ali. Por mais que a atuação de Shirlene Paixão e Welket Bungué sejam os maiores destaques aqui, não é o suficiente para sustentar uma obra de uma hora e meia de diletantes divagações sobre a direção inconsciente. Infelizmente se torna uma questão sintomática do cinema brasileiro essa verve de produzir por um fluxo de transas culturais e créditos pouco fixos na materialidade dessa própria cultura, se torna uma resposta vaga ao não-pertencimento e as trocas de experiências. E não deixa de ser uma vertente problemática de um cinema que tenta se reforçar nas representações que projeta e acaba ficando no meio do caminho.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *