A Máquina Infernal

A sina funcional

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

“A Máquina Infernal” de Francis Vogner dos Reis, um dos representantes brasileiros em Locarno, apresenta um grau de maturidade no gênero que parte do cinema brasileiro vem perseguindo há um tempo, o terror. O curta é consciente do rigor de seus espaços para a construção de uma tensão a partir da materialidade do cenário e o início da projeção cria uma relação dialética do trabalho e do terror que está sempre à espreita. O objeto de sobrevivência é a própria morte anunciada, uma decadência programada da fábrica dá lugar à síntese do proletário, a possessão de seus corpos pela exploração do trabalho.

O filme retoma a imagem dos operários debatendo o futuro junto ao sindicato (ideia que foi engolida pela descentralização das forças) e consegue uma representação da consciência de classe na apresentação do sujeito por seu ofício: “Chico da solda”. Esses elementos ajudam a construir uma ideia da classe e não do indivíduo no meio, ou seja, encontra um campo fértil para apresentar o trabalhador e sua própria decadência funcional diante do patrão. Quando uma das personagens pergunta se será efetivada no futuro, após o Carnaval, uma funcionária responde “Só Deus sabe”. É a sina da classe.

Os primeiros minutos são capazes de dimensionar o terror sem uma necessidade de exposição, o som vindo das máquinas criam a tensão a partir do próprio contraste, seu volume e seu “aspecto”, a montagem encontra uma dinâmica que compõe a dialética na composição. Quando a base narrativa se estabelece, o horror ganha corpo na relação do trabalho e a substituição da consciência pela função no trabalho surge como prenúncio da catástrofe. O homem que perdeu a mão e substituiu por peças da fábrica é um exemplo de como “A Máquina Infernal” não pretende um diagnóstico totalizante, mas não foge da crítica. O estanque do apocalipse operário surge após uma diretriz imediata do próprio terror dominar a tela. O ataque direto à classe é como um purgatório em pleno funcionamento, sem horário de trabalho e a mutilação da consciência. Um pindorama industrial às avessas.

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