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A Mãe

A expurgação ficcional de um luto assombrado

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Vitória 2022

A Mãe

Não, não ha como começar este texto sem antes ambientar o espectador. A  sensação que temos é que a periferia brasileira de São Paulo acredita realmente que não há amor em sua cidade. Os moradores só encontram selva, pedra, descaso, violência gratuita e a brutalidade da sobrevivência., entre convivências robóticas e/ou reações comportamentais sem “papas na língua”. Nesse abandono generalizado (e o pior, aceito como uma consequência social), nós encontramos o realizador Cristiano Burlan, um gaúcho que se tornou paulistano. Sua vida foi marcada pelo sofrimento, como se sua história estivesse fadada ao fim desde seu nascimento. Não, não há como não mencionar que seu pai foi assassinado. Seu irmão foi assassinado. Sua mãe foi assassinada, recentemente, por seu padrasto. De todas as opções ofertadas, escolheu o caminho mais incomum, o de fazer filmes, para talvez “portar” outro tipo de arma: a câmera, que intimida pela veracidade inquestionável do que se vê, mas que ao mesmo tempo também liberta. “Mataram minha família e eu fui fazer cinema”, disse certa vez em uma de suas entrevistas. Os acontecimentos dessa trágica história de sua família o fizeram com que Burlan tivesse que realizar sua “trilogia do luto” documental. Contudo, em 2022, seu mais recente filme “A Mãe”, estreia brasileira na mostra competitiva do Festival de Gramado, busca essa libertação pelo tom ficcional. O longa-metragem vem não só para coroar sua carreira, como para reiterar características intrínsecas de seu trabalho (“que chega na estica”) de artesão do olhar.

“A Mãe”, que está neste momento em exibição nas mostras competitivas de dois festivais concomitantes, o CineBH e o de Vitória, pode ser definido como uma dura ode ao amor de sua mãe, que padeceu no paraíso-inferno quando teve o filho assassinado. Isso “obrigou” Burlan a realizar “Mataram Meu Irmão”, documentário este que busca a verdade pela autoterapia cognitiva, ponto de partida e tentativa de chegada. “A Mãe” então chega para transformar esse caminho tortuoso em expurgação de um luto assombrado, por confrontar um passado doloroso e traumático com a aceitação racional do presente (e necessidade de seguir adiante). É praticamente Lacan na veia e na caveira. Como dito, “A Mãe” corrobora a forma criativa de Burlan, potencializando a cidade como força condutora da trama, a maior protagonista, que “permite” a presença invasiva de seres humanos, os atores, neste caso, a atriz Marcélia Cartaxo, essa mãe (ficcionalizada da real Isabel Burlan da Silva) que vive a sensação infernal de um sofrimento constante. Com tudo isso, Cristiano Burlan, talvez para fugir dos tormentos de uma injusta impotência, criou para si uma produção prolífica (creditado com 18 obras cinematográficas no IMDB). Em uma de nossas conversas, brinquei sobre não conseguir acompanhar a quantidade de filmes lançados por ele.

O longa-metragem busca o tom sensorial (sem acompanhamento musical, que mais parece um estágio de ressaca-transe moral, de cansaço desistente pela intermitente intimidação maniqueísta e conflitante entre os dois paralelos limítrofes do certo ou errado – visto que aqui, apenas uma “caída” já gera a contagem decrescente da própria vida). Essa sensação, de tempo real, que acontece no instante vivido, com uma atmosfera de Apichatpong Weerasethakul com Lav Diaz, especialmente pelo artifício do zoom da câmera, consegue captar o invisível que se aproxima e que ronda “os de mente fraca”, que ao esquecer de vigiar os erros, viram vítimas a esse mal espreitado, bem à moda de um “Twin Peaks” (de David Lynch), só que na favela, num lugar faroeste que a lei não existe e que impede, por exemplo, pastores de serem poetas (estes “que já nasceram com as palavras dentro deles”), como o repentista cearense de arte popular, Patativa do Assaré. Contudo, em “A Mãe”, a quebrada é diferente. O hip hop traduz a essência de morar em São Paulo, entre as complicações da polícia, que “causa mais dor que proteção”, entre camelôs, cobradores de ônibus e todos aqueles que fazem a cidade funcionar. O filme “7 Prisioneiros”, de Alexandre Moratto, pode ajudar a entender essa engrenagem de um sistema que precisa do ilícito para manter a ordem.

Burlan é um realizador cuidadoso e metódico com a encenação de seus interlocutores diretos (escalados por serem “atores-fetiche” do diretor). Essa é sua maior preocupação e maestria. A de ser ultra naturalista, não permitindo de jeito algum a liberdade poética da interpretação. Essa característica marcante, que desenha e define todas as suas obras, incorpora o coloquial, equilibrando o improviso das gírias. Isso causa o impacto de verdades genuínas. Tanto que na equipe técnica, há José Bosco e Silva, como produtor de elenco, e há também produtores de figuração, Aguinaldo Baliza e Ana Carolina Marinho, esta última que divide com Burlan o roteiro do filme em questão aqui. “A Mãe” é a representação da mãe-coragem, que não só luta em Maio, mas uma vida toda, reverberando a máxima popular de que “coração de mãe sofre”. Este é um filme para Isabel. Um tratamento de choque visual para ajudar um pouco na cicatrização do trauma.

Ainda que o filme seja redirecionado à uma aura mais de desconexão mental, a fim de traduzir (e confundir) se tudo não passa de um pesadelo, com um que de sonambulismo existencial, “A Mãe” é sobre a busca de uma mãe solo que não para de procurar seu filho por “não ter mais nada a perder”. É uma crítica à crueldade de uma desumana e embrutecida sociedade, que nunca encontra apoio, por medo da represália, na própria comunidade. É um “recado para a mãe guerreira ir à luta” e que a paz só virá “com o fim da policia militar”, até porque a “ditadura nunca acabou”, disse uma personagem. Cristiano Burlan já cansou e também não tem nada a perder. Talvez seja por isso que suas obras soam tão identificáveis, e assim tão (des)norteadoras. A cena final, de encenar o fim pela certeza do imaginário, com a estética da imagem, envolto em uma fotografia precisa de André S. Brandão, produz em nós seres a necessidade de melhorar como humanos e se importar finalmente com nossos próximos.

4 Nota do Crítico 5 1

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