A Lavanderia

Garboso Frankenstein

Por Jorge Cruz

A Netflix, que parece disposta a colecionar filmes de medalhões de Hollywood, reúne em “A Lavanderia”, o diretor Steven Soderbergh e a rainha indestronável Meryl Streep. Porém, no que há por trás do botão de play que não precisa ser clicado em virtude do início automático, só não é mais genérico do que outras produções da empresa porque bebe na fonte de histórias verdadeiras.

O hábito de consumir cinema popular dos Estados Unidos vem se tornando cada vez mais cansativo, devido a uma espécie de emulação de elementos cinematográficos, em sua maioria referenciais, que atravancam as obras. Da Geração Nova Hollywood mencionada em “Coringa”, até a aceitação total de um patrimônio de cultura pop a fim de criar um universo próprio – e bastante divertido – em “Jogador Número Um”. Os serviços de streaming, não apenas de audiovisual, inicialmente implementaram sistemas de algoritmos para melhorar as indicações dadas aos seus consumidores. Ocorre que, de um tempo para cá, esses algoritmos têm sido utilizados para a produção do conteúdo em si. No caso de “A Lavanderia” é tão flagrante a aplicação dessa política que seu segundo ato é um verdadeiro Frankenstein.

Baseado no escândalo conhecido como Panama Papers, o longa-metragem tenta de certa forma traçar uma rota do dinheiro de corrupção bem parecida com a proposta de “Polícia Federal – A Lei é Para Todos”. Longe de entrar no mérito motivações de realizadores e fidelidade com os fatos da produção brasileira, vale ressaltar que o resultado da obra do diretor Marcelo Antunez, quando comparada com “A Lavanderia”, é quase um “Todos os Homens do Presidente”. É difícil de acreditar que Scott Z. Burns, roteirista de “Contágio” e “O Ultimato Bourne”, assina esse texto.

A adição de elementos receptivos ao público ocorrem tão imoderadamente que o filme pode servir de base para tratar as mais diversas linguagens cinematográficas. A trilha sonora escanteada é resultado de uma tentativa de trazer cenas filmadas como se fosse um documentário, de câmera na mão bem próxima da ação – como na série “Modern Family”. Só que se junta a essa estética inserções narrativas engraçadinhas, em que Jürgen Mossack (Gary Oldman) e Ramón Fonseca (Antonio Banderas) explicam os procedimentos de seus golpes – incluindo um prólogo estilo cinema noventista constrangedor. Mais adiante, narração do personagem da vez divide espaço com quebras de quarta parede e atuações debochadas em cenas de situações esdrúxulas. Formas de se contar uma história que funcionaram bem em filmes populares de todas as épocas, desde “Golpe de Mestre” a “Queime Depois de Ler”, passando por “O Nome do Jogo”. Mas não tem como ser eficiente todo esse leque de abordagens simultaneamente.

O caminho inicial da história é o acidente de barco onde Ellen (Meryl Streep) viajava com seu marido. Ele não resiste, porém o dinheiro do seguro de vida nunca é recebido. O dono do veículo, que arcava com apólices caras para situações como essa, descobre que a empresa que segurava seu negócio era de fachada. Com isso, vamos adentrando no mundo dos paraísos fiscais, offshores e fundos administradores. Só que a ausência de unidade estética se alia a uma bagunça narrativa, onde personagens são adicionados ao longo de toda a trama, com suas histórias sendo abordadas de forma minuciosa, deixando à deriva o que estava se desenvolvendo antes.

Nessa miscelânea de contar uma trama truncada sobre o mundo dos negócios sem deixar o espectador-médio zonzo como fez “Margin Call – O Dia Antes do Fim”, fios interessantes de serem puxados são desperdiçados. Logo no início, quando Elle e seu marido contam para o casal ao seu lado no barco as vantagens de sua vida de viajante, um simples questionamento conceitual-filosófico expõe para o público toda a superficialidade da protagonista e seu marido em vias de falecer. Um arco que não é trabalhado, a despeito de Ellen desempenhar importantes funções na trama, a partir da maneira mais humana e fibrosa como ditará seus comportamentos e decisões a partir do golpe sofrido.

Já perto do final, quando núcleos como o liderado por Charles (Nonso Anozie) são destrinchados de forma bem mais eficiente, é ventilada a hipocrisia da ala bilionária, que acredita fazer o bem ao mundo combatendo uma suposta corrupção que eles alimentam. Outra abordagem que, injustificadamente, não ganha tempo de tela. A tentativa de reconstituir o Panama Papers, tratar de lavagem de dinheiro, a complexidade dos paraísos fiscais, os subornos sistemáticos dentro dos Estados Unidos, emulando todas as linguagens possíveis, atirando personagens representativos de todas as alas e despejando dinheiro na conta grandes nomes do cinema para algoritmizar o filme, transforma “A Lavanderia” em apenas um garboso Frankenstein de boas intenções.

 

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