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A Ilha de Bergman

The Winner Takes It All

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2021

A Ilha de Bergman

A ilha de Bergman”, de 2021, é um filme sobre criação no cinema: organizada em duas camadas, o enredo principal e o roteiro que Chris – a protagonista-cineasta – elabora durante a visita à ilha de Faro, a narrativa acaba permitindo uma interpenetração entre ficção e realidade (digética), assim como entre as linhas que separam passado, presente e futuro, fantasia e verdade, fracasso e sucesso. Sua recusa em enfatizar os acontecimentos, sua hesitação em ir fundo em algumas das direções que se apresentam, é, ao mesmo tempo, sinal de vitalidade – a sensação é de encantamento – mas também sugere um limite: a partir de certo ponto, em vários momentos, a diretora Mia Hansen-Love suspende as ações, dando a impressão de que seu objetivo era apenas tangenciar, e não mergulhar, nas ideias e emoções que propõe ao espectador. Ficamos seduzidos e frustrados, qualquer situação mais complexa é deliberadamente evitada. Talvez seja essa a chave do encantamento: frustração e beleza simultâneas, uma ação e reação que pacientemente constrói a trama envolvente, que Chris – excelente atuação de Vicky Krieps – nos convida. Seus sentimentos, impulsivos e melancólicos, carregam segredos e insegurança, carregam sobretudo a aspereza da criação, da imaginação do roteiro que escreve. O complemento, seu parceiro e igualmente cineasta, Tony – ótima atuação de Tim Roth – comporta-se de forma contida e amorosa, abrindo alas para Chris puxar o desenrolar do filme, através de sua presença na tela ou da narração do roteiro que elabora.

Mas, estamos em um território sagrado da história do cinema: a ilha de Faro, o local onde Ingmar Bergman, extraordinário e produtivo artista, escolheu para morar – além de realizar alguns de seus melhores filmes. Seu fantasma atravessa o filme, em forma de paródia – o “safári Bergman” que Tony acompanha é hilário – ou por meio de vitupérios: “Bergman foi convocado para lutar na 2ª Guerra e escapou alegando uma úlcera! Esses são os demônios que habitam dentro dele!”, brada o noivo do filme dentro do filme, irritado com a pergunta que Amy, a cineasta no filme dentro do filme, preparava-se para fazer. A atmosfera dessa construção parece feita sob encomenda para…estudantes de cinema, que podem se regozijar com uma plêiade de personagens ligados ao ofício do audiovisual, além do exercício da feitura do roteiro dentro do filme, sem falar, naturalmente, no terreno bergmaniano que sustenta a tudo e a todos. Logo na chegada, Chris e Tony são alertados: no quarto de cima foi filmado “Cenas de um casamento”, responsável por mais de um milhão de divórcios! Para aliviar, resolvem assistir, na cabine de 35 mm, um clássico, “Gritos e Sussurros”, obra-prima inquietante do sueco. A conclusão é inevitável: Ingmar Bergman não apenas construía cenas fantasmáticas em seus filmes, ele realmente acreditava em fantasmas, no caso o fantasma de sua última mulher, Ingrid. Quem leu a autobiografia do diretor, “Lanterna Mágica”, conhece o nível de exasperação e intensidade que ele jogou nos seus trabalhos, cinema, teatro ou ópera. Outro encantamento de “A ilha de Bergman” é o convite para ver ou rever essas obras, que ocupam, é desnecessário ressaltar, lugar especial na história da sétima arte.

Assim, embalados pela sutil conexão entre camadas de interpretação e escritura, percorremos esse espaço mítico como quem percorre um tranquilo parque temático – sem aglomerações, apreciando e usufruindo do ambiente. A ilha é, definitivamente, um vetor de divulgação da civilização sueca: a coroação vem com a (breve) catarse emocional de Amy ao ouvir a música do grupo ABBAS, “The Winner Takes It All”, outro vetor sueco. A câmera não executa movimentos excessivos, preocupada com as composições evocativa das paisagens, as mesmas paisagens que Bergman contemplou. Mesmo quando o casal de protagonistas diverge em relação a alguma fraqueza pessoal do diretor – Chris sugere que possa haver um certo sadismo na ênfase do sofrimento humano, como em “Gritos e Sussurros” – a resultante final é de simpatia. Bergman teve nove filhos com seis mulheres: Chris, sorrindo, admite que gostaria de ter filhos com cinco maridos diferentes.

A ilha de Bergman” ainda guarda outra conexão com o real: Mia, que antes de dirigir foi crítica do Cahiers du Cinéma e talentosa atriz, foi casada por 15 anos com o cineasta (e também ex-crítico do Cahiers), Olivier Assayas, uma parceria criativa, tal como o casal de protagonistas. Para arrematar nesse filme multinacional, menção honrosa à produção, comandada pelo brasileiro Rodrigo Teixeira – muito da leveza e fluidez impressos na tela certamente se devem ao azeitado extra-campo da realização.

4 Nota do Crítico 5 1

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