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A História Natural da Destruição

A narrativa de causa e efeito de uma guerra

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2022

A História Natural da Destruição

Em uma guerra, há dois lados. De um, uma ação radical de dominar pela força novas geografias e seus povos. Do outro, a luta desesperada pela sobrevivência, cujo conceito de existência transcende a própria salvação, invalidando a esperança e determinando a sensação de morte ainda em vida. Não, ninguém sai imune, tampouco os cenários, destruídos e com a cultura apagada. E é isso que o realizador ucraniano Sergei Loznitsa traz ao público do Festival de Cannes 2022, dentro das exibições especiais, fora de competição, o longa-metragem, de “métodos selvagens”, “História Natural de Destruição”. O filme em questão aqui é um documentário sobre a Segunda Guerra Mundial, que se passa em Berlim. Mas sua maestria está em desconstruir a forma e contar narrativamente o épico de uma guerra, com início, meio e fim, tudo por imagens de arquivo das coleções do Imperial War Museus, do British Pathé, do Gaumont Pathé, e outros. Sim, não há nenhuma intervenção moderna de Loznitsa. “História Natural de Destruição” é um filme-fato que acontece inteiramente nas escolhas de suas imagens cronológicas e na edição que monta tudo isso. Nós somos imersos em um túnel do tempo. Não na atmosfera de “Alemanha Ano Zero”, de Roberto Rosselini, mas na própria realidade filmada. De uma época passada, que volta aos holofotes pela nova guerra. 

“História Natural de Destruição” aborda uma experiência de viagem no tempo. Nós, passivos, observamos, à moda dos anjos berlinenses de “Asas do Desejo”, de Win Wenders, as decisões, destruições, mortes e tentativas de recomeços. Essa trama mostra todos os lados que integram uma guerra: os trabalhadores das bombas, os pilotos, os  “poderosos” e no fogo cruzado, o povo, perdido por impotência, confortável por ideologia, porque uma voz contra não mudará o mundo. As imagens daqui ganham força e imponência por si próprias, pelo peso dos acontecimentos do passado, atravessando com a observação pragmática o conceito da guerra com o intuito de descobrir os porquês desses meandros da natureza humana. Desse querer primitivo e irracional. Nada explica o motivo de alguém bombardear um país para recuperá-lo. A maestria de “História Natural de Destruição” está em criar uma narrativa que soa ficcional no meio de todo caos trágico do que se vê documentado. Loznitsa é preciso e cirúrgico em escolher essas imagens, que se complementam. Constrói-se assim uma histórica linha do tempo, entre coloquiais costumes e detalhes cotidianos, a fim também de criticar a própria humanidade, que sentiu a iminência das desgraças, mas que fechou os olhos, talvez por impotência e/ou preguiça. Em um discurso essencialmente cinematográfico. 

É quase inevitável não referenciamos “Vá e Veja” (1985). No filme de Elem Klimov, nós somos imersos no sinestésico sofrimento do protagonista, que “come o que o pão que o diabo amassou”. Se neste, o espectador sente o inferno, então em “História Natural de Destruição”, o objetivo é contar onde tudo começou pela linearidade das causas e passivas aceitações de um povo. “Nós, alemães de hoje, não somos um tipo de povo que implora misericórdia de um inimigo”, diz um dos arquivos da época. Sim, orgulho. Patriotismo. Uma guerra não ensina nada de bom: estimula o ódio contra nossos próximos que apenas estão em outras geografias; estimula a máxima da superioridade – um país merece mais que o outro. Mas porquê as pessoas compram essas ideias? Por que falta lucidez em discernir que matar representa a cartada mais radical de um jogo? O documentário-filme, baseado em imagens de arquivo da Segunda Guerra Mundial, é inspirado (por “impulsionar questões importantes”, explicou o diretor) no livro homônimo de W.G. Sebald, escritor e acadêmico alemão, que nasceu em 1944 e o escreveu em 1999 sobre a guerra aérea e de forma literária. Sergei Loznitsa, que já tinha se inspirado em Sebald para criar “Austerlitz”, segue sua carreira em tentar explicar os motivos das destruições. 

Em um de suas entrevistas durante o Festival de Cannes sobre “História Natural de Destruição”, a que foi concedida ao Hollywood Report talvez seja a que mais explique a verdadeira razão do diretor ter feito o filme:

“A ideia de fazer esse filme surgiu em 2018, depois que terminei “Donbass“. Basicamente, levei três anos para financiá-lo, porque tudo aqui é baseado em imagens de arquivo – temos duas horas de imagens de arquivo no filme e todos sabemos que as imagens de arquivo custam dinheiro. É pura coincidência que eu esteja terminando o filme no momento em que esta terrível guerra está acontecendo entre a Rússia e a Ucrânia. Mas eu sabia que isso ia acontecer há muito tempo. Eu falei sobre isso muitas vezes. É por isso que fiz “Donbass”. Você pode voltar e ver minhas entrevistas na época. Eu disse então: isso não é um conflito localizado, é o começo de uma grande guerra. Parecia muito óbvio para mim. A ideia desta guerra é um confronto entre duas mentalidades, duas formas de ver o mundo – a imperialista russa e a democrática ucraniana – que não são compatíveis e que não podem coexistir. Se olharmos para o meu filme atual, trata-se de um princípio que se tornou aceitável, quase padrão, desde a Segunda Guerra Mundial. Atingir a população civil é agora praticamente uma regra da estratégia de guerra. No momento, esse princípio está em exibição na Ucrânia, mas antes, a mesma coisa estava acontecendo na Síria, e o mundo parecia apenas olhar desinteressado. Acho que essa ideia, esse princípio de destruição em massa precisa ser analisado e refletido, não só pelos políticos, mas pelos filósofos, pelos antropólogos, pelos sociólogos, por todos aqueles que estudam a sociedade humana. Mas quando estávamos financiando esse filme e abordando diferentes financiadores, alguns representantes de emissoras de TV e fundações alemãs, por exemplo, disseram: “Não há nada a dizer, esse assunto já foi tratado. Nós [os alemães] fomos punidos por nossas ações. Caso encerrado.” É exatamente o que Sebald aponta em seu ensaio, que a moralidade [de alvejar civis] nunca é discutida”. 

5 Nota do Crítico 5 1

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