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A Grande Testemunha

O mundo em uma hora e meia

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 1966

A Grande Testemunha

A Grande Testemunha”, filme que Robert Bresson realizou em 1966, é uma pérola que resiste ao tempo – e reaparece conforme as tecnologias se sucedem, do VHS ao DVD, e agora no streaming. Não é uma tarefa fácil: o consumo do audiovisual se atualiza com o passar dos anos, as narrativas ficam mais complexas, o público mais exigente, e a oferta se alarga. Mesmo a disposição para consumir sofre alterações: quem poderia imaginar, em 1966, que a pulverização dos conteúdos trazida pela internet iria tornar cada vez mais errático o ato de apreciar, por uma ou poucas horas, uma obra fílmica? Séries completas em permanente oferta, ou simplesmente pílulas visuais produzidas no embalo das redes sociais, arrastam a atenção de espectadores frequentemente afoitos e ansiosos – sobra pouco tempo para o cinema.

Robert Bresson foi um cineasta que atravessou o século do cinema – nasceu em 1901, morreu em 1999. O conjunto dos filmes que dirigiu é, rigorosamente falando, sui generis: ou seja, sem semelhança com nenhum outro, único no seu gênero; original, peculiar, singular. De alguma forma, conseguiu produzir os filmes, sempre com essa singularidade tão especial. Claro, seu trabalho evoluiu, passou de um background católico para um tratamento mais materialista: mas essa pode ser uma síntese apressada. Convocando a indispensável Wikipedia, Bresson é mais ou menos

Conhecido pela sua abordagem ascética; deu uma contribuição notável à arte do cinema; atores não-profissionais, elipses e uso esparso de trilha sonora levaram suas obras a serem consideradas exemplos proeminentes de cinema minimalista. Grande parte de seu trabalho é conhecido por ser trágico em história e natureza.

Passando para o exemplo concreto: “A Grande Testemunha” situa-se numa alçada mais materialista do cinema bressoniano – apesar de conter inúmeras referências bíblicas, por assim dizer, começando com o título original em francês, “Au Hasard, Balthazar” (Balthazar era um dos três reis magos). Balthazar foi também o nome que Marie, a personagem de maior relevância entre os seres humanos, deu ao burrico que seu pai adquiriu, cobrindo-o de flores e abraçando-o efusivamente. Sim, pois o personagem principal é Balthazar: “Au hasard”, ao acaso, é a sina que o burro vai experimentar, uma vida com altos e baixos, trocando de proprietário (sete ao todo) e recebendo bons e maus tratos, conforme a ocasião. Na economia narrativa, é ele quem carrega a história (recentemente, “EO”, de Jerzy Skolimowski, utilizou – e homenageou – a estratégia).

Sete são os vícios capitais: avareza, gula, inveja, ira, luxúria, preguiça e soberba – cada um dos donos do Balthazar pecava nessa direção, segundo os críticos católicos (na época do filme eram muitos, hoje bem menos). O mundo mudou, e o que prevalece na leitura contemporânea de “A Grande Testemunha” é a reconstrução minimalista de um ambiente rural aturdido de disfuncionalidades, que orbitam em torno de um centro desprovido de razoabilidade humana, o pobre Balthazar, mas por isso mesmo apto a registrar desvios e bondades desses seres que insistem em comandá-lo. Esconda as ideias, mas para que as pessoas as encontrem: a mais importante será a mais oculta – é uma das citações conhecidas de Bresson, coletadas no volume que publicou no final da longa vida, “Notas sobre o cinematógrafo”.

Para encontrar as ideias, portanto, temos que aprender a olhar o que Balthazar vê – portas abrindo e fechando, personagens entrando e saindo, ruídos incidentais enaltecendo as situações, gestos repetidos, secura absoluta da representação, planos reiterados de pés e mãos. O observador Balthazar absorve tudo sem julgar ou analisar: afinal, é um burro, mas também é um centro narrativo. Não há sentimentalismos por parte de Balthazar, assim como não há sentimentalismo possível diante de um filme elaborado com tal rigor formal (consta que Bresson arrependeu-se de ter usado uma sonata para piano de Schubert, a única trilha musical do filme, pelo átimo de emoção que provoca na audiência).

O ouvido é profundo, enquanto o olho é frívolo, facilmente satisfeito – é outra das pistas que Bresson nos deixou. Seu ouvido era esperto, entre outros pela acurácia em captar a nova onda do cinema francês que se fazia naquele período, a Nouvelle Vague. Um de seus admiradores era Jean-Luc Godard, que organizou uma grande entrevista com Bresson para o Cahiers du Cinema – e se casou com Anne Wiazemsky, a Marie que amava Balthazar. O franco-suíço sintetizou: a obra de Bresson é o mundo em 1 hora e meia.

Trivia final: o ator que representa a “avareza” no filme é Pierre Klossowski, escritor e autor de “Sade, meu próximo” – um dos mais famosos livros sobre o infalível Marquês de Sade, arauto do anticlericalismo.

5 Nota do Crítico 5 1

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