A Grande Dama do Cinema

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Crepúsculo… pera lá

Por Vitor Velloso

Existe um certo estigma por trás da comédia, algo que já foi amplamente discutido por pessoas com mais relevância que eu, exemplo, Belmondo. É uma questão pouco justa com o gênero, pois algumas mentes arcaicas acreditam na superioridade eterna do drama, porém, o mínimo de revisão histórica nos mostra que trata-se apenas de um preconceito tolo que a alta burguesia/aristocracia fundamentaram buscando envernizar um (pseudo) tratamento intelectual da arte, sem perceber que a postura apenas traz a ignorância quanto ao que de fato importa no processo experiencial.

Assim, se falarmos de uma comédia latino-americana, é possível que uma expressiva parcela irá duvidar da qualidade do filme, por uma questão de colonização cultural, norte-americana e européia. Ainda que os países latinos provaram ao mundo a qualidade de nosso cinema, incluindo a comédia (mesmo que a maior quantidade não entre na equação, assim como nos EUA e Europa), a maior rejeição vem do próprio país onde o filme é realizado.

Dirigido por Juan José Campanella, “A Grande Dama do Cinema”, busca uma compreensão da ficção através dela mesma, na ideia de absorver elementos do próprio cinema a partir de uma estrutura metalinguística. Na prática essa possível complexidade é bastante diluída, pois a abordagem que Campanella adota aqui, vai flertar com elementos primordiais da comédia, utilizando o drama exatamente a fim de flexibilizar mais a noção narrativa que é construída através da problemática inicial. Assim, a própria sinopse já revela parte das ambições do cineasta, uma estrela decadente que despontou como atriz há décadas, Mara Ordaz (Graciela Borges), vive com um roteirista, Martin (Marcos Mundstock), e um diretor de cinema Norberto (Oscar Martinez), além de seu marido, Pedro (Luis Brandoni) , um ator que não vingou. Nesta casa a harmonia é uma palavra inexistente, o constante conflito rege cada segundo da colossal residência, antes luxuosa, agora mantém a silhueta do passado com a presença da decadência no presente. Mas com a chegada de dois pilantras, Bárbara (Clara Lago) e Francisco (Nicolás Francella), que se aproximam dos artistas aposentados com fins de tomar a casa e vendê-la por preços avassaladores, faz a dramatização ali existente apenas no campo do diálogo, ganhar contornos trágicos.

O trunfo do filme é exatamente a fixação precisa em um lugar onde comédia e um excesso dramático possam coexistir, a hipérbole aqui serve para manter sob controle toda a premissa rocambolesca que se desenvolve, não à toa, diversos absurdos narrativos são acrescentados a partir de uma necessidade de fugir das multi-camadas possíveis que a estrutura criaria. Assim, clichês tomam conta da trama, auto-conscientes, e flexibilizam a relação do público com as referências que vão tomando forma.

O longa é uma reimaginação de um filme de 76, de mesmo nome, logo, grande parte das questões são comuns em ambos.

O elenco possui uma química impressionante, tendo como âncora a constantemente deslumbrante Graciela Borges, que guia os personagens com uma organicidade própria dela, seu modelo decadente, menos ingênuo que soa e mais iludida que acreditamos, conduz o espectador à um olhar lúdico acerca desta história, tentando nos convencer de acreditar em concretude na possibilidade da ficção, nos lembrando que estamos assistindo a um projeto fílmico.

Acaba que algumas dessas decisões que possibilitam o senso comum na trama, vão criando pequenas barrigas no longa, deixando-o em curtos momentos monótono, sempre projetando algo a ser ultrapassado, estas repetições tornando-se demasiadamente constantes, através de uma rígida decupagem, criam a necessidade de existir uma virada a cada instante, ou perde-se o espectador, mas a frequência mantém a previsibilidade e assim apenas no, assumido, terceiro ato que temos o desfecho de todas as enrolações possíveis no fim da história. Mas até lá, é possível pegar-se distraído e refletindo sobre elementos que não adicionam tanta personalidade à obra, como a trilha sonora e a direção de arte, que não mantém um grau de mediocridade mas não conquista seu espaço, fazendo apenas o necessário para que o fluxo seja mantido.

Não é propriamente um grande filme, muito menos um “Crepúsculo dos Deuses”, mas sem dúvida entretém e atinge objetivos curiosos, ainda que opte por alguns caminhos fáceis.

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